sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Como é feito o Aço Damasco.

Provavelmente a pergunta mais freqüente que ouvi durante minha carreira como cuteleiro profissional é: “Como é feito o aço damasco?”. 



Entretanto, antes de iniciarmos é premente definirmos o que é chamado aço damasco. 

O que é o aço damasco? 

O aço damasco ou aço de damasco era feito com freqüência antes do período industrial, pois como não existia aço virgem para a venda à disposição dos ferreiros, estes utilizavam-se de todo aquele que pudessem reciclar (ferraduras, pregos, dobradiças, tramelas, etc) e também o extraído da fonte original do aço, o minério de ferro. 

Assim, os ferreiros os fundiam num único bloco de aço, num processo tecnicamente chamado de caldeamento, que é a micro fusão de superfície, onde as camadas se fundem em uma só, submetidas a uma pressão adequada, à temperatura de 1100 graus Celsius. 

Desta forma, os ferreiros conseguiam “juntar” o aço escasso que conseguissem, num bloco único, manufaturando-o posteriormente desde a forma de pequenas facas, até mesmo a de imensos canos de canhões. 

A técnica da confecção do aço damasco ficou perdida por aproximadamente três séculos, pois com o início do período industrial, não mais era necessário juntar as "migalhas de aço" para fazer uma única peça. 

Havia então aço em abundância. Desta forma, todos os ferreiros que conheciam a técnica ancestral foram morrendo, até que não restasse ninguém que soubesse como é que se faziam aquelas espadas e adagas maravilhosas que hoje estão guardadas cuidadosamente nos melhores museus do mundo. 

Só em 1973, um norte-americano chamado William “Bill” Moran, após décadas de tentativa e erro, conseguiu redescobrir a técnica de confecção do aço damasco, chocando o mundo da cutelaria. 

Tal aço é assim chamado, pois ainda que tenham sido os indianos que desenvolveram a técnica, as peças eram comercializadas na cidade de Damasco, na Síria, o maior centro comercial da época. 

Conhecedores do que é o aço damasco, podemos passar agora para a explicação de como este é feito. 

Como é feito o aço damasco? 

1. Seleção dos aços: geralmente os aços damascos modernos são confeccionados a partir de dois tipos de aços. Normalmente escolhe-se um aço de alto teor de carbono e outro aço de alto teor de níquel. Priorizamos aqueles que apresentam características mecânicas ideais para a confecção de ferramentas de corte. 

À esquerda as barras de aço carbono e à direita o aço níquel.

Selecionados os aços, cortamos barras do mesmo tamanho e as intercalamos soldando as extremidades, formando o que chamamos de barra inicial, que soldamos a uma haste que possibilite a manipulação a quente. 

A barra inicial.

Neste caso específico, minha barra inicial consiste de 11 camadas, sendo 6 de “aço carbono” (mais grossas) e 5 de “aço níquel” (mais finas). Para cada padrão de aço damasco, existe uma proporção adequada de cada tipo de aço.

2. Caldeamento: nesta etapa, aquecemos a barra inicial a 1100 graus Celsius e a submetemos à pressão, para que as camadas se fundam em um único bloco de aço. Esta pressão pode ser proporcionada por prensa hidráulica, martelete mecânico ou pneumático, ou por martelo manual. 

Aquecendo a barra à 1100º C.

Caldeando no martelete pneumático.

Caldeando na prensa hidráulica.

Caldeando no martelo.

Estando devidamente caldeado, o bloco único é forjado no formato adequado para a próxima etapa, a multiplicação de camadas.

Barra já caldeada.

3. Multiplicação de camadas: nesta etapa, cortamos a barra e posicionamos suas partes para um novo caldeamento, o que fará com que seu número de camadas seja multiplicado. Nas fotos abaixo utilizei-me do ácido percloreto férrico, para que fosse possível visualizar as camadas fundidas num único bloco. 

Multiplicando sequencialmente as camadas.



Após a multiplicação atingir o número de camadas objetivado, o bloco único é forjado em medidas específicas para a próxima etapa. 

Cada padrão de aço damasco moderno possui um procedimento próprio que faz com que o resultado final seja predeterminado. Ou seja, para cada desenho diferente que se vê em uma lâmina, existe um procedimento determinado que o resulte: número de dobras, sentido das dobras, formas de forjamento, etc. 

Para cada padrão também existe uma faixa “ideal” de número de camadas cujo resultado é esteticamente melhor. Isso, é claro, varia conforme a interpretação pessoal de cada cuteleiro. 

O número, neste caso, não é relevante, foi apenas citado para que o leitor possa compreender como planejamos a confecção dos mais variados padrões. 

Neste caso específico, cujas fotos estão servindo para ilustrar o texto, estou executando o damasco composto Padrão W.

4. Exposição das camadas: para explicar melhor esta etapa, costumo fazer uso de uma metáfora, que facilita a compreensão. 

Se olharmos um sanduíche deliciosamente preparado por cima, nada mais podemos ver além de pão. 


A parte mais bonita e saborosa, o recheio, só poderá ser vista se cortarmos o sanduíche ao meio e olharmos na face cortada. 


Com alguns padrões de damasco a sistemática é a mesma. A foto 8 mostra a barra final já com o número de camadas que eu pretendia: 297. Entretanto, olhada por cima, só podemos ver o “pão”, ou seja, a beleza da fusão das camadas está oculta no interior da barra. 

Barra final com o número de camadas já multiplicado.

Para solucionar este problema um cuteleiro genial chamado Steve Filicietti, desenvolveu um método que leva o seu nome: Método Filicietti. 

Ele cortou a barra final diversas vezes em ângulo de 45 graus, formando pastilhas, que caldeadas em posição diferente deixariam o desenho das camadas (“recheio do sanduíche”) totalmente à mostra. 

Cortando a barra em pastilhas de 45º.

O aspecto interno das pastilhas, expondo as camadas de aço damasco.

Reorganizando as pastilhas com as camadas viradas para cima.

As pastilhas soldadas expondo suas camadas, prontas para mais um caldeamento.

Já caldeadas as pastilhas e voltando novamente a formar um bloco único de aço, basta forja-lo no formato desejado da faca, conforme o modelo objetivado. Neste caso específico, trata-se de uma Chef di Coisine - Modelo Francês – Padrão Internacional. 

Faca forjada.


Depois de forjada, a faca é usinada (lixada) na lixadeira e manualmente através de limas e lixas, chegando bem próximo do formato final. É importante notar que os caldeamentos bem executados proporcionam a fusão perfeita dos aços, não restando sinais de emendas ou falhas. O aspecto final é o mesmo de uma faca composta de um único aço.



A faca usinada.

5. Revelação do Aço Damasco: é hora de exibirmos a beleza e a mística desta técnica milenar. Submetemos a lâmina ao ataque do ácido percloreto férrico. Este ácido ataca proporcionalmente muito mais as camadas de “aço carbono”, mantendo quase que totalmente preservadas as camadas de “aço níquel”. Assim, com tempo e supervisão adequados, as camadas de “aço carbono” ficarão em baixo relevo, distinguindo definitivamente o desenho formado pelas camadas misturadas. 

6. Fosfatação: a última e fundamental etapa da confecção do aço damasco é a fosfatação, ou seja, a lâmina é submetida a um banho de fosfato de manganês (um material protetor do aço) sob temperatura e tempo controlados, depositando-se principalmente sobre as camadas de “aço carbono”. Acontece que o fosfato de manganês é negro e removendo-o com uma lixa fina das camadas de “aço níquel”, forma-se o contraste maravilhoso das camadas negras e prateadas. A otimização é conseguida com polimento criterioso em máquinas ou manualmente com lixas finíssimas grão 2500. 

O aspecto final da faca.

É importante ressaltar que nesta descritiva não abordamos aspectos como geometria, ergonomia, proporção, fluidez estética, distribuição de peso, combinação de materiais, tratamento térmico, acabamento e diversos outros quesitos absolutamente inerentes a confecção de uma boa faca.

Abaixo seguem algumas fotos de vários padrões de damascos diferentes, os quais logicamente diferem também em seus protocolos de produção.

Padrão Torcido.

Padrão Dog Star.

Padrão Aleatório.

Padrão W - Método Acordeon.

Padrão Turco.

Padrão Ladder.

Padrão Mosaico.

Padrão W Breeze.

Padrão Arkansas Breeze.


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54 comentários:

  1. Muiito bom eu não tinha total noção ainda do processo, ligando sua explicação e outros conhecimento ja estou tendo +/- ideia de todo processo, parabéns e obg!

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  2. Texto claro e objetivo, uma verdadeira aula. Coisa de Mestre. Hilton

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  3. Muito boa matéria. Tomei a liberdade de compartilhar com os amigos. Abraços

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    1. Olá Francisco, fico feliz que tenha gostado e agradeço pela força em divulgar. Abração e excelente 2013!

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  4. Olá Berardo, já tenho duas obras de arte suas em casa, mas não tinha idéias de como era feito o aço damasco. Parabéns pela matéria, muito ilustrativa. Um ótimo 2013 para você e família, abs, Cláudio Spalter - Porto Alegre.

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  5. Berardo muito boa a explicação de como o aço damasco é obtido hoje. As espadas de aço damasco que ficaram famosas eram forjadas de modo diferente das facas de hoje como provaram John Verhoeven e Alfred Pendray no artigo "The Mystery of the Damascus Sword".

    Abraço

    Alexandre

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  6. Excelente tópico! O mais esclarecedor que já li a respeito. Muito obrigado!

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    1. Que bom que você gostou Maurício. Em breve postarei novas matérias técnicas. Abraços!

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  7. Parabéns pelo tópico e pelo blog! Esse t foi um dos mais esclarecedores que eu já li sobre o assunto. O senhor poderia esclarecer qual seria o aço níquel?

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    1. Olá Maurício. O aço níquel que usei é o 15N20, utilizado para fazer lâminas de serra de fita para madeireiras. Acredito que seja o mais utilizado por cuteleiros custom no país. Abraços!

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  8. Parabéns por todo o blog e especialmente por este arquivo (artigo), mais esclarecedor impossível. Abraços.

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  9. Olá Eduardo tudo bem companheiro ?

    Tenho uma dúvida com o uso do aço damasco e limpeza etc, ele vai "perdendo" a cor. Tenho algumas que estão assim, gostaria de saber o seguinte, quando elas estão assim como devo proceder para retornar a beleza original dela.

    Muito obrigado

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    1. Olá Diego. Você pode fazer um polimento manual com lixa grana 2000. É só polir com um pedacinho na ponta do indicador. Voltará a ser como era em 10 minutos. Abração.

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    2. ah tá quer dizer que então não preciso dar um banho novamente com ele com os produtos etc?

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  10. maravilha mestre Berardo, segue o meu forte abraço

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    1. Grato Irmão. Forte abraço e que Deus te abençoe!

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  11. Gostei muito, não tinha conhecimento das técnicas..

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    1. Fico feliz que tenha gostado. Forte abraço e obrigado por participar!

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  12. Muito bom mestre, suas facas são muito lindas em especial teu damasco em padrão ondas de fogo que ficou show meus parabéns, eu acompanho teus artigos pelo blog e pelo face. Meus parabéns e muito sucesso Mestre!!

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  13. Eduardo, primeiramente parabéns pelo seu lindo trabalho e pelas informações tão bem organizadas. Estou fazendo experiencias na minha forja e gostaria de saber qual têmpera e e o aço carbono que vc utilizou com o 15n20, o 52100 também pode ser usado com o 15n20??

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    1. Olá Heitor, no Brasil normalmente se usa 5160, O1, 1070 como aços carbono para damasco. O 52100 não caldeia bem com ele. Recomendo qualquer um dos anteriores. Abraços!

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    2. Muito obrigado por partilhar esses conhecimentos Eduardo, o senhor foi de grande ajuda, parabéns novamente pelo seu trabalho.

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  14. Cara muito legal mesmo! Obrigado por compartilhar seu conhecimento!

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  15. Quem transmite conhecimento, é merecedor de uma mente cada vez mais iluminada.
    Parabéns pelo blog, e sucesso como cuteleiro.

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  16. Paulo L. Santos

    Tenho uma pequena mecânica de usinagem, vejo sempre as perguntas e respostas
    que são postadas no seu site; acho muito bonito esse trabalho pretendo (como hobby algum dia desses fazer uma faca Damasco para uso próprio,porem só vou começar após esclarecer algumas duvidas.
    1ª Que pó é esse usado na peça incandescente na hora da sobreposição das camadas?
    Obrigado um forte abraço.

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    1. Olá PAULO. O pó é Tetraborato de Sódio, conhecido comercialmente como Bórax. Você encontra para comprar em lojas de fornituras para joalheiros! Abraços.

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  17. Gerson Vignoli Perrenoud25 de agosto de 2014 14:22

    Parabéns pela matéria e lindas facas! Em breve vou encomendar uma para presentar minha esposa que é Chef de Cozinha, abraço

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  18. Que matéria legal...e que belas facas.

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  19. magníco texto. Claro e objectivo.

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  20. Muito lindo o seu trabalho, que Deus continue te dando saúde para continuar com sua arte. Pretendo um dia me ariscar na arte da cutelaria. Um abraço.

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  21. Simplesmente perfeito seu trabalho... venho acompanhando e me inspirando nas suas obras de arte ... e tambem quero agradecer a vc pelos toques que vc me deu sem mesmo me conhecer .. muito obrigado e que Deus abençoe a vc e familia sempre...

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  22. Simplesmente perfeito seu trabalho... venho acompanhando e me inspirando nas suas obras de arte ... e tambem quero agradecer a vc pelos toques que vc me deu sem mesmo me conhecer .. muito obrigado e que Deus abençoe a vc e familia sempre...

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  23. Meu, que trabalho excelente!
    Muito bonito, explicativo, informativo... Nossa... Excelente!
    Cara, sou novo nessa arte e amei seus trabalhos, seus artigos, enfim...
    Parabéns!

    Deus te abençoe grandemente!!!

    Abraço!

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  24. trabalho especial, parabéns .... facas damasco são realmente trabalhos feitos pra durar, e de uma beleza sem igual, sou um admirador de todos os trabalhos feitos com aço damasco...abraço mano

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    1. Sr. Berardo, realmente é maravilhoso ver a sua arte no aço. Meus parabéns. Espero um dia ter umas.aulas contigo.Que Deus o abençoe e te conserve. Abracos.

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  25. Amigo show de bola sua explicação, isso é uma coisa que enriquece a alma, na qual tu tens o conhecimento e de boa vontade e prazer tu passa adiante, muito obrigado pelo conhecimento e por saber que existem pessoas que não deixam morrer a boa arte da cutelaria nobre, na qual não se "mixa" em passar o conhecimento adiante,parabéns!

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  26. Primeiramente, ótima matéria!e obrigado por compartilhar.
    Segundo onde encontro o ácido para revelar o damasco e o fosfato de manganês?

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  27. Sou guia de turismo gaúcho, passando para parabenizar pelo artigo. Muito cultural, vou indica-lo como referencia pra essa cultura muito usada em meu estado no passado por sua grande influencia siria, turca etc. Um capitulo da nossa historia pouco conhecido. A cutelaria, tramontina industria nossa fabricou uma em homenagem e possui a linha damasco, abraço e parabens
    Guia Jonatan Agencia Personalitur Gramado-RS

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  28. Cara, Parabéns pela matéria!
    Sempre achei lindas essas facas, mas como não entendia como eram feitas, sempre achei muito caras! Rsrsrsr
    Agora entendo o preço.
    Baita trabalho!!!!
    Abraço.

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  29. Suas facas ,são belíssimas parabéns sua cutelaria fica em são Paulo

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  30. Suas facas ,são belíssimas parabéns sua cutelaria fica em são Paulo

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  31. Parabéns belas facas gostaria que vc informações o preço ,e colocar mais vídeos abraços

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  32. Parabéns, didático e direto sou iniciante no ramo da cutelaria estou impressionado com a forma bem simples e clara de explicação meu caro, obrigado pelas informações um abraço que Deus te abençoe !

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  33. Berardo , Acompanho seu trabalho

    Belíssima explanação sobre a nobre arte de fazer aço damasco , parabéns

    Leonardo Corrêa

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  34. Parabéns! Ótimo trabalho! Suas facas são impressionantes!
    Um dia quero ter uma se Deus quiser....

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  35. Me ajudou bastante e ao mesmo tempo me deixou muito mais curioso sobre essa técnica.
    Tenho estudado bastante sobre o tema, mas parece que quanto mais estudo, menos eu sei...
    Belíssimo trabalho, parabéns!
    Deus abençoe o amigo.

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