sábado, 2 de agosto de 2014

O Mestre, o Monge e o Sapo

Meu objetivo com este artigo não é, de forma alguma, advogar em favor ou desfavor de qualquer pessoa, mas sim o de produzir mudança de comportamento positiva no povo brasileiro, em especial nos profissionais de cutelaria.


Uma cultura sem cultura


Um comportamento frequente em nosso país hoje, é o de as pessoas aparentarem o que na realidade não são. 

Qualquer menina bonita, com curvas sensuais que tem 1 ou 2 minutos de exposição em rede nacional, já se acha atriz e quer trabalhar na novela das oito ou apresentar um programa só dela.

O MC Fulando de Tal, que vendeu meia dúzia de discos, já se acha hábil músico e pensa estar no patamar do Roberto Carlos. 

Isso corrói a cultura de nosso povo e subverte nossos valores éticos e morais. 

A exposição exagerada e efêmera, baseada em aparências e em requisitos pessoais sem qualquer conteúdo, seduzem, especialmente aos jovens, que passam a sonhar com o "estrelato" a qualquer custo, deixando de trilhar o caminho concreto por meio do trabalho duro e do estudo.


Titãs

Já cantavam os Titãs em "A melhor banda de todos os tempos da última semana":


"Quinze minutos de fama

Mais um pros comerciais,
Quinze minutos de fama
Depois descanse em paz.

O gênio da última hora,
É o idiota do ano seguinte
O último novo-rico,
É o mais novo pedinte"



As Facas e o nosso querido Brasil

A cutelaria custom em nosso país ainda se encontra em período embrionário, bem no comecinho de sua história, visto que ainda hoje, em detrimento de muitos esforços isolados, a divulgação de nossa arte é pequena, o número de nossos artistas é ínfimo e o percentual de clientes conquistados frente ao número de potenciais clientes, ainda é uma milionésima fração do que pode vir a ser.


Silvana Mouzinho, 
sem dúvidas uma das maiores incentivadoras 
da Cutelaria Custom de nosso país.

Quando um novo simpatizante de lâminas aparece e começa a conhecer aos poucos o que é, o nível técnico, a performance e a qualidade de uma faca custom, inevitavelmente fica maravilhado.

Sem dúvidas, colecionar lâminas, discutir sobre elas, usá-las e confeccioná-las são atividades sensacionais, que cativam muita gente.


Uma das reuniões mensais da Conversa Afiada:
boa proza e gente bacana fomentando a cutelaria!

Ocorre que existe uma distância razoável entre gostar e comprar. Mesmo que o interessado tenha poder econômico que o permita, comprar a primeira faca custom, pela simples diferenciação de preços entre uma faca industrial e uma confeccionada inteiramente à mão, trata-se de um passo bem grande.

As pessoas leigas não tem sequer uma vaga ideia da dificuldade técnica, do tempo de produção, da qualidade, da alta performance e consequentemente do preço de uma faca custom.

A distância que separa o cliente de meramente gostar e admirar, para efetivamente comprar uma faca é longa e só é percorrida desde que haja presente um adjetivo imprescindível:

CONFIANÇA!



Quando alguém compra uma faca, não pode determinar com certeza se o aço utilizado é realmente o mesmo que foi anunciado, se todas as etapas do tratamento térmico foram corretas e fielmente cumpridas, se a faca não quebrará e o deixará na mão. 


O Cliente simplesmente confia!

Conquistar essa confiança é um exercício diário, uma verdadeira maratona, uma batalha cotidiana, que não permite o menor deslise, nem um pequeno vacilo, que suscite um vislumbre de falha moral associada à pessoa do artista.



É sedutora a ideia de vender facas por um bom valor. Isso arrebanha uma legião de pretensos novos cuteleiros, que mal sabem o quanto o caminho é longo e árduo. 

Mas, para que alguém consiga vender sua facas, não basta que elas sejam belas e cortem bem. O artista deve manter-se constantemente transparente, honesto e confiável!


O Mestre!

A maioria das pessoas que decidem se embrenhar numa nova área do conhecimento humano, a aprender uma nova ciência, não tem sequer uma vaga noção do que realmente significa a palavra Mestre.

Na maioria das vezes, é um título erroneamente associado à pompa, à fama e ao sucesso. Ledo engano!

Esquecem-se da imensa carga de responsabilidade que um Mestre carrega em cada uma de suas ações, em seus exemplos, nos seus ensinamentos ministrados. 


À direita o Mestre Jigoro Kano,
Criador do Judô.

Me recordo da palestra ministrada por um professor de Judô, 9° Dan, na Federação Paulista de Judô quando, junto com vários colegas, fui aprovado à graduação de Faixa-Preta 1º Dan, no ano 2000 em São Paulo.

Todos estavam esperando ouvir que naquele momento estaríamos nos tornando mestres, donos do conhecimento, os pais da matéria.

Qual foi a minha surpresa, depois de longos 23 anos de prática e dedicação ao judô, quando de peito estufado ouvi, como primeira frase, que nós ainda não sabíamos nem uma pequena fração do que precisaríamos aprender, que estávamos no início da jornada e que usar uma faixa-preta só aumentava a responsabilidade de dar um bom exemplo e aumentar a dedicação nos estudos e treinamentos do judô. Que ninguém ali era mestre de nada e que ser um mestre não estava relacionado à cor da faixa que ostentávamos, mas ao modo de pensarmos e nos comportarmos.



Pra quem estava todo metido, esperando um efusivo "parabéns" e um abraço fraterno, aquilo foi um soco no estômago! Aliás, o judô me bateu no estômago centenas de vezes na vida. Inúmeras vezes que eu estava começando a me sentir "o cara", o lutador mor, invariavelmente, neste dia, eu tomava um belo de um pau no treinamento. Era impressionante: era só eu começar a me achar e apanhar, como dizem na minha região, "como vaca na horta de japonês!"


Ensinando aos mais jovens, depois de ter aprendido a lição
de que eu não sabia "quase nada"!

Certa vez vi um garoto perguntando ao Mestre Cuteleiro Rodrigo Sfreddo, durante um evento, quanto tempo levava pra fazer uma determinada faca. Resposta: vinte anos! 

Dominar a arte à ponto de ser reconhecidamente um Mestre é uma longa e dura jornada, de dedicação e esforço constante e que traz consigo uma carga imensa de responsabilidade. 


Rodrigo Sfreddo: Mestre de Fato e de Direito!

Sfreddo me disse uma vez que para ser um Mestre não basta conseguir fazer uma faca de mestre. É necessário que todas as facas confeccionadas à partir de então, sejam do nível das facas de um Mestre.

Ademais, o verdadeiro Mestre jamais deixa de ser um aprendiz, pois sabe que sempre haverá mais para aprender e para se aperfeiçoar!



O Monge...

Títulos à parte, pois eles não necessariamente significam conduta ético-profissional irrepreensível nem tampouco conhecimento sólido, um profissional de conhecimento elevado e qualidade técnica suprema, não tem necessariamente que ter um título para ser o que é.

Como exemplo máximo disso gosto de citar o cuteleiro Gustavo Vilar. Gustavo não tem título nenhum na cutelaria e ao que me consta, também não se preocupa nem planeja tê-lo. Ele é o que é, confia plenamente naquilo que sabe e faz, e está plenamente seguro e satisfeito com isso.


Gustavo Vilar.

Gustavo é surfista, triatleta, bicho solto! Filho de artistas consagrados no Estado do Espírito Santo. Se eu não estiver enganado, seu pai é escultor e sua mãe artista plástica e ambos são professores de artes nas Universidades Federal e particulares de Vitória.

O rapaz cresceu em meio à arte e domina praticamente tudo em termos de técnicas que se podem aplicar em uma faca ou canivete. Tecnicamente falando, posso apostar que com seu nível técnico ele "dá pau" em muitos cuteleiros que são mestres por título. Mas, Gustavo não tem título de mestre.


Alto astral, exímio profissional e um cara muito gente fina!

Hoje o consagrado cuteleiro está morando e trabalhando nos Emirados Árabes, pertinho da paradisíaca Dubai, contratado por um Sheik para fazer exclusivamente as suas peças de coleção e as que dá de presente à seus amigos. O patrão do Gustavo vende petróleo e paga em dólar. Mas, Gustavo não tem título de mestre!

Exatamente aí que está a questão. Para ser efetivamente um Mestre, não é necessariamente obrigatório se ter um título. O Mestre se faz pelo conhecimento e conduta... não pelo diploma!

Gustavo é o Monge, que escolheu viver na dele, fazer o que gosta e ser feliz com isso, sem a necessidade de ter que provar nada pra ninguém. Não que os Mestres intitulados tenham buscado seus títulos com o intuito de provar algo para os outros, pois buscar certificação é legítimo e desejável, mas sabemos que alguns não buscam o nível técnico nem a conduta, mas a pompa e os holofotes!


O Sapo.


A cultura brasileira atual ovaciona o que se aparenta ser, sem que necessariamente o seja! Celebridades efêmeras ao estilo Big Brother fazem surgir no imaginário de nosso povo de pouca cultura, a oportunidade de se tornar "artista", de ficar em evidência, qualquer que seja a estratégia ridícula e apelativa utilizada.

Vamos nos lembrar da história daquela moça loira, que chocou até mesmo os seus jovens colegas de faculdade, tão pequena que era a mini saia que trajava, bem como o senso de pudor que manifestava.


Virou manchete nacional... ganhou dinheiro fácil aos montes e hoje ainda tem espaço na mídia e colhe juros e dividendos de seu comportamento questionável!

Obviamente, ela só continua tendo espaço nos meios de comunicação, porque nós mantemos em alta as audiências dos programas nos quais ela aparece. Absoluta falta de cultura e de conteúdo intelectual do nosso povo! 

Entretanto, como diz o ditado popular: "Ninguém consegue enganar a todos o tempo todo!"

Inevitável a queda, o desmascaramento, a exposição ao ridículo de quem se alicerça nesses quesitos. Uma celebridade vazia, sem conteúdo e com prazo de validade determinado... É nesse ponto que entram os artistas da cutelaria!

O caminho a ser trilhado em busca do domínio de nossa arte é extremamente longo, penoso e sacrificante. E não existem atalhos!!!



O domínio de determinadas técnicas básicas são essenciais para o desenvolvimento futuro e concreto de outras mais avançadas. Não há como pular etapas!

O aprendizado e o domínio das técnicas devem ser sólidos, afim de que alicercem o bom nome do cuteleiro, que deve crescer naturalmente com o passar do tempo.

Esmerar-se, buscar conhecimento e acima de tudo manter a humildade é vital à uma carreira promissora e crescente em qualidade técnica e em visibilidade.



Que a dedicação, a persistência e o conhecimento venham antes dos títulos, dos prêmios e do reconhecimento, de modo a serem concretos e inabaláveis e, pessoa nem circunstância alguma possam maculá-los, abalá-los.

Meu conselho aos mais novos é que espelhem-se nos bons exemplos da nossa Cutelaria Custom Brasileira. Seja num Mestre ou num Monge, de acordo com o perfil pessoal de cada um. 

Não que podemos deixar que aconteça na cutelaria, o que infelizmente acontece em outros ramos profissionais no Brasil, é o surgimento de novas gerações de "faz de conta".

Como disse anteriormente, a cutelaria só evolui mediante CONFIANÇA!

Trilhem os caminhos, paguem os preços e cresçam alicerçados em conhecimento sólido e conduta ético-profissional inabalável, para que no futuro, nada nem ninguém possa transformar o que todos pensavam ser um Príncipe... num Sapo!




Para receber emails de Facas Disponíveis, 
Vídeos, Artigos e Informativos sobre Eventos, 
cadastre-se, enviando email para:

e.berardoknives@gmail.com

Contato:
Email: e.berardoknives@gmail.com
Celular: (17) 99727-0246
Telefone Fixo: (17) 3525-2595

domingo, 27 de julho de 2014

Bowie Fúria!!!

Olá Caros leitores do blog.

Gostaria de mostrar a vocês um Fun Job, um trabalho que fiz para satisfazer minha vontade criativa, para me divertir...

Como trabalho bastante com facas sob encomenda, vez em quando sinto vontade de fazer aquilo o que minha inspiração indica.

Como tenho muita satisfação em fazer Bowies, segui nesse rumo...

Partindo do requisito inicial de que queria fazer algo com o máximo desempenho, escolhi o design de lâmina das Bowies Arkansas... curvatura acentuada do fio e ponta agressiva... Perfurar e cortar!!!

A guarda dupla esportiva é sempre uma ótima opção. Leve, bonita, com design arrojado e confortável às mãos.

O design escolhido para o cabo foi o pistol grip, com algumas pequenas adaptações: reduzi a barriga do ventre do cabo (onde tocam os dedos anular e médio) e ampliei as dimensões do pomo, especialmente no sentido do dedo mínimo, para aumentar o apoio e a segurança.

Já a matéria prima do cabo é uma sensação à parte: raíz de Maple estabilizada, em raríssimos dois tons. Lindíssima! A mesma madeira que usei na Chef Chocolate com Creme.

O cabo foi afixado com pinos mosaicos, que harmonizam perfeitamente ao estilo e design da faca.

Porque escolhi esse nome??? Porque ela ficou furiosa pra cortar!

Espero que apreciem. Forte abraço e uma excelente semana a todos!


Bowie Fúria: alto desempenho em cada detalhe.

A fantástica combinação de tons da raiz de maple, 
permeada de desenhos psicodélicos.

Notem como o fio é bastante curvo e a ponta muito agressiva.

O pomo e junção do cabo com a guarda.

A harmonia perfeita das curvas da lâmina, guarda e cabo.

O pistol grip.

Uma potência nas mãos!

A Fúria!



Para receber emails de Facas Disponíveis, 
Vídeos, Artigos e Informativos sobre Eventos, 
cadastre-se, enviando email para:

e.berardoknives@gmail.com

Contato:
Email: e.berardoknives@gmail.com
Celular: (17) 99727-0246
Telefone Fixo: (17) 3525-2595

sábado, 19 de julho de 2014

Soares Bowie

Olá Pessoal.  

Há algum tempo recebi uma encomenda de um amigo e grande colecionador que me deixou muito empolgado.

Uma Bowie, com 12 ou 13 polegadas de lâmina, guarda em "S", com caráter de fighter e um cabo semelhante ao tradicional pistol grip, mas com design diferente.

Partimos eu e meu camarada colecionador para as discussões de definição do projeto, o que sempre me agrada muito fazer.

Para o cabo foi solicitado o osso de girafa com melhor craquelado que eu tivesse.

O design, teria que lembrar os cabos de pistola, porém menos robusto.

Por se tratar de uma lâmina muito grande, optei, por segurança, por não fazer uma lâmina tão estreita e pontuda, como as fighter de 8 polegadas de lâmina.

Pelo tamanho e peso do cabo de osso de girafa, convinha um pouco mais de massa na lâmina, para garantir a resistência mecânica.

O resultado está aí: lâmina em design swedge, 12 polegadas de comprimento, damasco padrão Arkansas Breeze, uma guarda em "S" extremamente elegante, o cabo suavemente curvo com separador entre os dedos indicador e médio.

A bainha contou com um botão de damasco num design diferente.

Espero que apreciem. Seus comentários são sempre muito bem vindos!

Grande abraço e bom final de semana a todos!


Soares Bowie.

O craquelado muito miúdo e regular 
do osso de girafa.

Belíssimos tons de cores.

Bainha acompanhando a curva da guarda.

A elegância da guarda em "S".

Vista superior.

Na cintura: uma bela faca!

A harmonia perfeita das curvas.

Um belo projeto.

Guarda em "S", lâmina em damasco, cabo arrojado:
Combinações perfeitas!

A harmonia do conjunto faca / bainha.

Pronta para o saque rápido!

Junção perfeita das talas de osso de girafa.

Passadores para uso horizontal e vertical.

Imponente!

Espaço perfeito para o cinto.



Para receber emails de Facas Disponíveis, 
Vídeos, Artigos e Informativos sobre Eventos, 
cadastre-se, enviando email para:

e.berardoknives@gmail.com

Contato:
Email: e.berardoknives@gmail.com
Celular: (17) 99727-0246
Telefone Fixo: (17) 3525-2595

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Porque a Sabatier é a Fórmula 1 das facas de cozinha



Claramente a culinária francesa é a mais famosa, apreciada e referenciada pelos amantes da alta gastronomia no mundo.

Não somente a culinária, mas praticamente todos os aspectos da identidade do povo francês, fazem com que este seja reconhecido como altamente requintado.


Como não poderia ser diferente, a escola de culinária mais famosa do mundo, também desenvolveu o modelo de faca de cozinha mais reproduzido e usado.

Quer seja uma faca de alto desempenho, confeccionada em aço damasco forjado artisticamente, quer numa versão mais popular, fabricada industrialmente, praticamente todos já viram e usaram uma Sabatier.

Uma antiga faca em estilo tradicional Sabatier

O nome Sabatier é originário da região de Thiers, na França, no início dos anos 1800.

Desde os idos da Idade Média, Thiers foi ligada a indústria de talheres.

Com o advento da era industrial os fabricantes começaram a consolidar seus ofícios e desenvolver suas próprias marcas.

Vista panorâmica da cidade de Thiers

Nesta época, duas famílias começaram a usar simultaneamente o nome Sabatier para produzir e vender facas. 

Aparentemente elas não tem qualquer relação de parentesco, somente as coincidências do mesmo nome e de produzirem facas.


Jean Sabatier de Le Moutier (Thiers inferiores) e Phillipe Sabatier de Bellevue (Thiers superior).

Thiers

Existe muita controvérsia de quem teria registrado primeiramente o nome e nenhuma comprovação material de que o tenha feito.

O nome Sabatier não é considerado uma marca, porque foi usado por muitas empresas diferentes antes mesmo da existência de leis de propriedade intelectual ou de marcas comerciais entrarem em vigor na França.

Por fim, diante desse mistério, ficou o legado do modelo da mais bela, versátil e eficiente faca de cozinha existente no mundo (em minha opinião, claro!).


Enfim vamos analisar o projeto da Sabatier detalhe a detalhe...


A faca


1. Técnica Construtiva:

Controvérsias à parte, a Sabatier tem como uma de suas características principais, ser forjada integralmente, ou seja, numa única peça de aço. 

Essa técnica construtiva traz algumas vantagens...

Primeiramente pode ser considerada mecanicamente mais forte do que se fosse, por exemplo, uma estrutura formada por diversas peças montadas.



Outra grande vantagem é que, não existindo emendas, também não existirão frestas para acúmulo de sujeira e restos de alimentos que, em se tratando de uma faca projetada para o processamento de alimentos, pode ser muito perigoso por causa da contaminação com fungos e bactérias.

2. Aspecto estético:

Se pensarmos nesta faca como uma ferramenta para cozinhar, a questão estética não pode ser considerada como prioridade principal. 

O mais importante é que a "ferramenta" realize com alto desempenho todas as funções para as quais fora projetada. 

Mas, até nisso as Sabatier são primorosas.



Como um carro esportivo de alto desempenho e extrema elegância, as Sabatiers tem em seu projeto o aspecto arrojado, esguio, fluído e com cada curva e detalhe no lugar exato onde deveria estar.


É um projeto elegante e requintado em sua totalidade.

3. O fio:

Costumo brincar, fazendo um trocadilho com um texto bíblico, dizendo que uma faca serve tão somente para cortar e furar, e o que passar disso "é de procedência do mal"! Ou seja, além disso, é invencionismo barato!

Analisando-se qualquer tipo de faca existente no mundo, mais uma vez sob o aspecto da ferramenta, ela se presta exclusivamente à duas funções principais: cortar e furar. Algumas, dependendo do projeto, apenas tão somente à uma destas funções.

Um punhal stiletto, por exemplo, destina-se única e exclusivamente à perfurar, já um cutelo de cozinha, somente à cortar..., mas vamos voltar às facas de cozinha!



3.1. O perfil:

O perfil do fio das Sabatier, fazem delas incríveis máquina de cortar. 

A curvatura acentuada e gradual, desde a proximidade com o cabo, até a ponta, reduz a superfície de contato inicial entre o fio e o objeto a ser cortado, que por ser menor, produz consequente aumento de pressão na área de corte, que toca o objeto.

Além disso, a curvatura proporciona que o usuário corte fazendo um movimento de mata-borrão, ou seja, cortar mediante um movimento de subir e descer a lâmina, sem no entanto tirar o fio da tábua. 

Isso proporciona alta velocidade e controle sobre os cortes.


3.2. A geometria:

Muito embora um leigo desconheça, existem muitas diferenças nos fios das facas, dependendo do destino a que foram projetadas. 

Facas que se destinam à cortes mediante impacto como cutelos projetados para cortar ossos, e grandes facas de campo, que devem se necessário, botar uma árvore ao chão, devem contar com uma geometria de fio mais robusta, sensivelmente mais obtusa, que lhe confira mais resistência mecânica para manter a integridade do fio, sem fraturas, quando cortam.

Já facas de caça, luta e cozinha, por exemplo, dentre outras, trabalham mediante cortes deslizantes e para tal, não carecem de uma estrutura muito robusta para fazerem bem o seu trabalho. 

Ao contrário, é desejável um fio mais agudo e portanto agressivo, que proporcione cortes precisos e sem resistência!


4. A ponta:

Muito embora não se use com tanta frequência a ponta da faca enquanto se cozinha, considero a existência da ponta agressiva, uma das virtudes das Sabatier que as fazem sobrepujar as Santoku japonesas na cozinha, para uso geral.

Inevitável imaginar uma carne que necessite, por exemplo, da remoção de alguns pontos de gordura.

Aí vocês podem pensar..., mas para isso eu posso usar uma faca menor e mais pontuda!

É exatamente esse o ponto que faz da Sabatier uma faca mais completa do que os demais projetos.

Você faz tudo com ela..., sem precisar de qualquer outra faca!



5. A lâmina:

5.1. Comprimento:

As dimensões mais produzidas das Sabatier pelo mundo, sem dúvidas são as de 10 polegadas de comprimento de lâmina.

Como faca principal de chefs, essa é a medida mais desejada, pois é capaz de realizar qualquer tipo de trabalho na cozinha.

Geralmente recomendo entre 8 e 10 polegadas para meus clientes, dependendo do uso. 

Para aqueles que pretendem usar as facas para comer um bom churrasco, recomendo a medida maior.


5.2. Largura:

Já no tocante à largura, em obediência ao estilo, procuro sempre confeccioná-las largas, próximo de 2 polegadas.

Isso reflete em duas coisas: mais estabilidade quando se corta grandes volumes, como um maço enrolado de folhas de couve; e maior distância dos dedos do usuário entre o cabo e a tábua.

Se tivéssemos uma faca estreita, certamente os dedos tocariam a tábua e gerariam desconforto.


5.3. Espessura:

Essa questão é simples: as Sabatier não servem para cortar árvores! Logo não necessitam de massa. Isso significa que quanto mais leve melhor. Sendo leve o usuário pode sutilizá-la por horas à fio, com conforto e segurança.

Costumo fazer as minhas com o dorso próximo de 2 milímetros de espessura, o que tecnicamente é muito mais difícil, mas que as tornam muito leves, confortáveis e ágeis.


6. A calha:

Essa nomenclatura foi criada por mim e baseia-se na função à que esta parte específica da faca se destina.

Trata-se da região curva, próximo ao cabo, que fica imediatamente após o término dá área de corte da faca.

Na foto abaixo a calha está bem visível, pois é justamente a área que está refletindo bastante a luz.



Essa região exerce a função de um limitador, bloqueando tanto alimentos quanto fluídos de chegarem às mãos do usuário. Um exemplo:

Ao cortar um abacaxi, o aumento repentino de espessura da lâmina na região da calha, impedirá que a fruta se aproxime da mão do usuário.

Da mesma forma, a calha fará com que o suco do abacaxi, ou gordura, sangue e líquidos de quaisquer outros alimentos, escorram em direção à tábua, ao invés de seguirem em direção do cabo, o que deixaria a empunhadura mais insegura.



A Sabatier é o único projeto que conta com esse recurso!

7. Limitador:

Eu chamo de "limitador" a parte final do fio, que já não corta, em destaque na foto abaixo.

Essa região é propositalmente sem corte e serve para que, quando em corte de alta velocidade, seja por meio de movimento de mata-borrão, seja por movimento de guilhotina, a faca não finque a ponta final do fio na tábua, o que atrapalharia demasiadamente o desempenho do chef.



A Sabatier também é o único projeto que conta com esse recurso!

8. Cabo:

Se fossemos comparar uma faca campeira gaúcha com 10 polegadas de lâmina, com uma Sabatier também de 10 polegadas, notaríamos rapidamente que a proporções dos cabos eram muito dissonantes.

As Sabatier tem, proporcionalmente, cabos muito menores..., e isso tem um porquê!



As facas de campo, por exemplo, carecem de cabos maiores, que preencham completamente a mão, de modo a proporcionar segurança e estabilidade, pois conforme vimos, elas cortam mediante impacto.

Isso produz fortes vibrações nas mãos e quanto maior a superfície de contato, maior o controle e a dissipação de energia mecânica.

O usuário de uma faca de campo não carece de pegar e largar com frequência! 

Ao contrário, o ideal é que pegue e não largue mais.



Já nas Sabatier, durante o ato de cozinhar, o chef pega e larga a faca dezenas, talvez centenas de vezes.

Em se tratando de um cabo fino e todo sinuoso, essa alternância entre empunhar e soltar é muito facilitada.

Facas de cozinha com cabos superdimensionados são descômodas e não fazem bem suas funções.



Observação: Todos os cabos das minhas Sabatier são confeccionados com madeiras estabilizadas com resina. Trata-se de um processo onde o bloco de madeira é colocado com resina numa câmara de vácuo. A resina é aquecida e penetra em toda a profundidade da madeira. Isso não altera o aspecto natural da madeira, entretanto mantém esta indefinidamente inerte à proliferação de fungos e bactérias, bem como resistente à rachaduras, dilatação e ressecamento. Ideal para um cabo de uma faca que irá molhar com alta frequência e processar diretamente alimentos.



Conclusão...

Provavelmente muitos dos leitores não imaginaram que cada pequeno detalhe desta virtuosa faca, tivesse, além do aspecto estético, uma atuação decisiva no desempenho geral da faca.

Estes fatores diversos somados, fazem das Sabatier, em minha opinião, as melhores facas de cozinha do mundo e é toda essa exigência técnica que me fascina cada vez mais a produzi-las!



Para receber emails de Facas Disponíveis, 
Vídeos, Artigos e Informativos sobre Eventos, 
cadastre-se, enviando email para:

e.berardoknives@gmail.com

Contato:
Email: e.berardoknives@gmail.com
Celular: (17) 99727-0246
Telefone Fixo: (17) 3525-2595