sexta-feira, 10 de maio de 2013

Ondas de Fogo - Novo e Exclusivo Padrão de Aço Damasco desenvolvido por Eduardo Berardo

Há cerca de dois anos venho desenvolvendo uma linha de raciocínio para a criação de um novo padrão de damasco, que desde o início imaginei que viesse a resultar num desenho dramático, plástico e muito bonito.

Como sou cuteleiro em tempo parcial, tenho grande limitação de tempo para produzir minhas facas, quanto mais para desenvolver técnicas que invariavelmente tem que passar por um processo de tentativa e erro até que atinjam um resultado satisfatório. 

Desta forma, tenho que "diluir" meus experimentos entre uma faca e outra, de forma a não prejudicar a produção regular em minha oficina.

Para conseguir o resultado que apresento a vocês agora, tentei 4 formas diferentes de manipular as etapas de multiplicação das camadas, tendo resultado insatisfatório nas 3 primeiras e conseguindo na última.

Pelo aspecto final da mistura das camadas de aços carbono e níquel, notei que os desenhos formados pelo aço níquel (de aspecto prateado), tomaram uma forma semelhante às ondas do mar, com picos, cristas e tubos, que pelo perfil alongado dos desenhos lembram também as labaredas de fogo.

Como temos que nominar nossos trabalhos, escolhendo nomes que sejam legais e ao mesmo tempo atrativos comercialmente, resolvi chamá-lo de Ondas de Fogo, ou Fire Waves em língua inglesa, uma vez que a divulgação meu trabalho extrapola as fronteiras da Terra Brasilis.

Fiquei realmente satisfeito com o resultado, materializando-o nesta Bowie Fighter, de lâmina esguia, suavemente recurva que leva um belíssimo e extremamente raro cabo de marfim de morsa fossilizado de cor azul.

Após encontrar o caminho ideal (método) para a multiplicação das camadas entre as etapas de caldeamento, pretendo agora experimentar uma maior densidade do desenho, tentando um número maior de camadas, em uma lâmina bem grande e larga, o que provavelmente potencializará a dramaticidade e o movimento das ondas.

Espero que vocês apreciem. Um grande abraço a todos!








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domingo, 28 de abril de 2013

A Arte e a Ética

Faz realmente muito tempo que sinto vontade de falar sobre a ética na cutelaria brasileira. Não tenho diploma acadêmico específico para tal, mas certamente minha formação cristã, militar, judoísta e familiar me habilitam tranquilamente para este mister. 

Muito embora tenha um grande amigo, com formação específica, que é professor de ética da Academia de Polícia Militar do Barro Branco em São Paulo há muitos anos, que poderia, aposto que com satisfação, me ajudar neste texto, entendi ser melhor não envolvê-lo na manifestação de meus pontos de vista.  

Um impeditivo sempre foi o veículo de comunicação adequado para isso, pois já presenciei discussões em fóruns na internet que inicialmente deveriam ser técnicas e sérias, se transformarem em baixarias da pior qualidade. 

Como o assunto é extremamente polêmico e pode, se mal direcionado, tornar-se uma tempestade colossal, o blog é a ferramenta perfeita para a expressão de meus pontos de vista, pelos quais sou totalmente responsável, pois se o nível dos comentários enviados descerem aos porões do inferno, eu simplesmente não os publico.

Todos os fatos aqui relatados não são obras de ficção científica, nem tampouco mera coincidência. Foram todos percebidos por mim ao longo desses 8 anos de carreira como cuteleiro profissional. Obviamente não referenciarei pessoas, pois não pretendo depreciar o nome nem a reputação de ninguém, apenas busco uma análise crítica, lúcida e construtiva de comportamentos que em dadas circunstâncias não foram legais sob o senso comum das pessoas. Minha luta não é contra os autores, mas sim contra os atos.

Não se trata de forma alguma de um desabafo. É somente a manifestação do que penso sobre o tema!

Essa abordagem não exclui minha responsabilidade de algum eventual comportamento anti-ético praticado no passado. Eu também erro com os outros! Não estou me colocando na condição de mais ético que ninguém, apenas buscando uma constância na correção de atitudes para com as outras pessoas, prática que por sinal, me auto-imponho diariamente.

Vamos lá:

Pensando na vida, na solidão do trabalho árduo na oficina,
 enquanto a barra de damasco esquenta.

Os Brazucas de modo geral (mas existem exceções... claro!):

Eu, assim como boa parte de meus amigos cuteleiros, nasci na década de 70, mais precisamente 1971, logo após a Seleção Canarinho ter conquistado sua terceira Copa do Mundo. Momentaneamente os problemas dos brasileiros haviam desaparecido, como a inflação, o desemprego e a falta de infra-estrutura. Nosso povo estava num êxtase entorpecido pela conquista do título mundial.  

Nesta época, um famoso jogador de futebol fez uma campanha de marketing para uma marca de cigarros, onde após algumas cenas e poses altivas, anunciava: Fume Vila Rica.... pra você levar vantagem em tudo!"

Essa prática, a de levar vantagem em tudo, enraizada em nossa cultura já há séculos antes da malfadada propaganda, acabou levando o nome de Lei de Gerson, que sozinho... coitado, teve que carregar nos ombros essa maldita prática tupiniquim de sempre levar a melhor, ainda que para isso tenha que prejudicar os outros.

Nunca vi qualquer entrevista sobre isso, mas aposto que o habilidoso jogador hoje, pagaria 10 vezes o valor recebido para não ter seu bom nome associado a essa prática condenável.

O fato é que, o Gerson não tem realmente nada haver com o peixe. Sair inescrupulosamente por cima é senso comum brasileiro. Vemos isso no dia-a-dia, na tv, na internet e até ensinamos isso às nossas próximas gerações... não é?

E o tal Jeitinho Brasileiro? Como lhe soa isso? Arrumar uma solução, não interessa como? Fazer de qualquer jeito? Bem ou mal feito, mas damos um jeito em tudo. Não é assim? Uma manobra revestida de malandragem... jogo de cintura! O pior é que ainda falamos com orgulho desse jeito espertalhão e repudiável de nosso povo.

Alguém aí já ouviu falar no Jeitinho Japonês de resolver as coisas? Não? Simples: trabalho, seriedade e comprometimento. Os japoneses fazem absolutamente tudo com esmero. Criaram até um ritual pra poder tomar um chazinho de fim de tarde!!! Imaginem se ao invés de Iroshima e Nagazaki as bomas atômicas tivessem sido detonadas no Rio e em São Paulo? Suspeito que correríamos o risco de estarmos nos alimentando de ratos de esgoto e morando debaixo de escombros mesmo depois de quase 70 anos. O Japão.... ah, já está reconstruído, bem bonito, bem feito e moderno, mesmo depois do horrendo tsunami que o devastou dias atrás!

E a situação do Idoso? Em nossa cultura o velho, injusta e criminosamente é tratado como estorvo, sem valor, peso morto! Será que nos esquecemos que vamos todos ficar velhos um dia? Onde foi parar o respeito aos mais velhos? E a sabedoria e experiência dessas pessoas, não conta? No Oriente em geral o velho é uma entidade destacada dentro da família, respeitada e reverenciada como bem merece. Onde foi parar nosso respeito pelos nossos semelhantes?

A questão é essa, nos vangloriamos de uma cultura sem cultura, onde o feio é tratado como bonito e fazer o certo é coisa de careta e otário! 

Terrível!

Equalizando a temperatura.

Os Fóruns da Internet:

A internet, como quase tudo criado pelo homem, pode ser usada tanto para o bem, quanto para o mau. Não entendo nada de informática, mas é fácil supor que a finalidade principal da internet é compartilhar conhecimento, expandir e acelerar a velocidade da comunicação entre as pessoas. 

Os hoje populares fóruns de discussão de cutelaria são uma forma brilhante de compartilhamento de conhecimento técnico, bem como da cutelaria como arte em geral. Foram criados para promover discussões de alto nível técnico-científico nas mais variadas ciências que abrangem nossa arte: física, química, metalurgia, ergonomia, ergometria, estética, etc. Estes veículos de comunicação também tem a grande capacidade de popularizar uma arte que até então era totalmente desconhecida do público brasileiro.

Ocorre que onde deveria imperar o conhecimento técnico e as práticas da boa educação, como cordialidade, respeito e discrição, por vezes ocorre o domínio da maledicência e da pessoalidade em questões que deveriam ser absolutamente impessoais.

Não me refiro aqui a nenhum fórum específico, mesmo porque já constatei comportamentos inadequados em todos os que já frequentei, mas não podemos nos esquecer que os assuntos tratados nestes meios devem ser técnicos e isentos. Um cuteleiro pode não gostar da pessoa de outro, mas tem o dever de respeitar o trabalho deste e seu meio de sustento.

Fóruns não são locais para falar mau dos outros nem tampouco de seus trabalhos. A regra é simples: Se você não concorda com alguma questão técnica, discorde manifestando-se com respeito e cuidado. Se você não tem controle emocional e é incapaz de se relacionar com pessoas que tem pontos de vista diferentes dos seus, ótimo, não se relacione, não participe dos fóruns. 

Por causa destas práticas abomináveis, deixei de postar em fóruns já há um bom tempo, com medo de que um dia alguém indevidamente virasse seu canhão desrespeitoso para minha cara. Nossa querida cuteleira Silvana Mouzinho já me deu vários puxões de orelha por essa minha ausência. É que eu odeio briga, especialmente com gente de baixo-nível. Tá aí a minha explicação!

Um pensamento cujo autor desconheço, mas que recebi por e-mail há alguns anos e que gravei por achar sensacional:

"Você nunca deve entrar numa briga com um idiota. Se você entrar, ele o fará descer até o  nível dele e o vencerá naquilo que ele faz de melhor: ser idiota!"

Sem dúvida a internet tem sido a maior e melhor ferramenta para crescimento técnico dos artistas brasileiros e deve ser usada com sabedoria e ética!

Quase lá!

O aprendiz espertalhão:

É frequente em minha caixa de e-mail e também na de meus amigos cuteleiros de alto nível técnico, mensagens de cuteleiros iniciantes que sem qualquer prévia nem minimamente informal apresentação, como exigiria a boa educação, fazem perguntas sobre questões técnicas, por vezes bastante complexas, as quais levam às vezes horas de raciocínio e escrita de nossa parte.

Já escrevi por uma hora e meia para explicar para um desconhecido, uma técnica que levei vários anos para desenvolver. Depois disso passei por mais de um mês dando suporte técnico quase que diário para corrigir os erros de prática deste cidadão. Depois que tudo deu certo e ele conseguiu executar a técnica, o camarada desapareceu na mesma velocidade com que surgiu, parecendo aqueles ninjas que somem em meio à fumaça, sem sequer um "valeu Berardo pela ajuda!", quanto mais um formal e merecido "muito obrigado!". 

Mas a coisa não pára por aí... calma, vai piorar! Tempos depois, num evento de cutelaria em São Paulo, vim a saber que o camarada esteve presente expondo por 3 dias e nem sequer se deu ao luxo de sair de sua mesa por alguns instantes para vir até a minha para me conhecer pessoalmente nem para manifestar-me sua gratidão pela ajuda!

Impressionante! O duro é que em conversa posterior com meus Irmãos cuteleiros pude perceber que situações semelhantes aconteceram diversas vezes com eles e que desde então deixaram de ajudar desconhecidos pela internet.

É ponto pacífico que a única forma de elevar o nível técnico e popularizar a cutelaria custom no Brasil é através da troca de informações. Isso não se discute! Mas infelizmente hoje, não se pode investir horas e horas de um tempo precioso ensinando pessoas que não fazem jus à receber um conhecimento que por vezes levou-se vários anos para adquirir.

Tenho ensinado o que sei, gratuitamente à dois amigos iniciantes. Mas eles tem feito por merecer!

 Opa... agora está no ponto!

A lebre e a tartaruga:

Uma coisa é certa: nenhum cuteleiro que trabalha hand made vai ficar rico! Quem está à procura disso, errou de carreira. Muito embora bons cuteleiros consigam alcançar um nível de rendimentos financeiros que lhes proporcionam uma vida digna, muito acima da média salarial do povo brasileiro, ficar rico é utópico!

Bons profissionais ganharão dinheiro, decorrente de décadas de dedicação, disciplina e trabalho sério. O aprendizado é árduo e plagiando Rodrigo Sfreddo, cutelaria á 5% inspiração e 95% transpiração. Ou seja, é trabalhando duro que se alcança bom nível, não existem atalhos. 

Se a motivação inicial de qualquer cuteleiro for ganhar dinheiro, sem dúvida vai se estrumbicar. Sem paixão pela arte do ferro e do fogo não se chega a lugar algum, será um cuteleiro medíocre e inexpressivo.


E uma coisa que se aprende rápido no Brasil é que facas de damasco custam mais caro. São mais caras por uma série de fatores plenamente justificáveis, sendo os principais porque são mais difíceis de produzir e mais demoradas.

Quando alguns iniciantes entram nesse meio e vêem uma faca de aço damasco sendo vendida por vários milhares de reais, supõem imediatamente que descobriram a galinha dos ovos de ouro. 

Daí o atalho mais comumente visto por aí. O camarada ainda nem conseguiu fazer uma boa faca de aço carbono, livre de graves erros técnicos e já está juntando aço pra caldear damasco.

Aí, ao invés de fazer uma grande porcaria de aço carbono, faz uma maior ainda de aço damasco. Já vi facas grotescas de aço damasco, com erros infantis ridículos, numa clara tentativa de cortar o caminho natural, difícil e demorado do aprendizado técnico consistente, para se tentar ludibriar o cliente vendendo uma porcaria cara e mal feita.

Depois o apressado não sabe porque suas facas não vendem nem ganham prêmios.

Assim como na fábula da corrida entre a lebre e da tartaruga, ser constante, paciencioso e humilde o fará cruzar a linha de chegada e se tornar um cuteleiro consagrado, ainda que o caminho seja longo e difícil.

Temperatura certa, pressão certa: Aço damasco bem feito!

De abóbora à carruagem:

Outra situação frequente na corrida desenfreada por dinheiro é o aprendiz que, como passe de mágica se torna mestre. Soube numa conversa com um cuteleiro renomado e muito amigo que enquanto ele estava ministrando ensinamentos técnicos à um cuteleiro em fase bem inicial de aprendizado, este, o aprendiz, estava simultaneamente ministrando um curso para terceiras pessoas.

Meu Deus, ou é um gênio prodígio da aprendizagem e da habilidade inata ou o maior picareta da docência metalúrgica mundial. Como será que ele conseguia enganar seus desafortunados alunos ensinando aquilo que não dominava.

Não acho que seja necessário ser Mastersmith para poder ensinar os outros, longe disso, mas sem dúvida é imprescindível dominar aquilo que se ensina. 

 A pressão e o calor que produz o bom aço,
também produz os bons cuteleiros.

The Caroço Customer:

Minha esposa trabalha como vendedora há mais de 20 anos e me ensinou uma gíria do comércio de minha região. O cliente que olhava todo o estoque da loja, desorganizava tudo, até a vitrine e tomava o tempo das vendedoras por horas sem, ao final, comprar uma única peça! O cliente caroço!!!

Em nosso caso é o camarada que faz mil perguntas técnicas difíceis, te impede de atender à outros clientes num evento, lhe toma horas incontáveis de trabalho, depois negocia o valor da faca regateando até o ponto onde você começa a fazer planos de esfaqueá-lo com a própria faca pretendida, e depois de irritá-lo e esvair com todas as suas energias, vai embora sem comprar nada.

Deixem-me explicar por favor! Adoro quando um cliente me pergunta como se faz isso ou aquilo. Gosto e tenho muita paciência e didática para ensinar aos que se interessam. Estou falando de um ou outro (felizmente são bem poucos) que você sabe, desde sempre (pois a história se repete há vários anos), que não vão comprar nenhuma peça, vão torrar sua paciência, depois vão chorar o preço da faca até depreciar seu trabalho e não vão fechar negócio nenhum contigo. Já até vi um cuteleiro amigo, que é um Lord, perder totalmente a paciência com um desses.

Me considero calmo, paciencioso e bom vendedor, mas confesso, quando vejo uns poucos caras, mesmo de longe, num evento qualquer de cutelaria, minha pressão até sobe. E olha que tenho uma saúde de ferro!

Guinness Book da chatice e da falta de respeito pra eles!

Transformando aço incandescente em Obras de Arte.

O professor de Deus:

Outro fenômeno que infelizmente acomete alguns cuteleiros aqui e mundo afora é a falta de humildade. 

Já presenciei atos de arrogância nauseantes por parte de cuteleiros que, mesmo tendo alcançado nível técnico satisfatório, internalizaram a ideia de que  são superiores à tudo e à todos.

Esquecem-se do dever de gratidão aos que os ensinaram, falando mau das carreiras e das peças de seus professores. Seu Mestre sempre será seu Mestre, ainda que um dia você alcance uma posição, em tese, acima da dele!!! 

Transparecem tanta superioridade e dizem saber de tantas coisas que, como dizia um ex-Comandante parecem ser os professores de Deus.

A questão é (e já falei sobre isso no Facebook) que para ser bom, excelente ou até mesmo excepcional, não é necessário que os demais sejam medíocres. O referencial comparativo de sua evolução profissional não deve ser os outros, mas sim você mesmo. Fazer a próxima faca melhor do que conseguiu fazer a última. Se esforçar para não reeditar os erros que foram cometidos no passado. Buscar melhorar sempre!

Posso ser um bom profissional tendo colegas de profissão tão bons ou até mesmo melhores que eu! Não preciso ser um Pelé pra poder fazer um gol. Aliás, nunca vi o Rei do Futebol alimentando a disputa ridícula que a mídia fomenta entre ele e Maradona. Em detrimento disso, nada nos impede de tentarmos ser o melhor que pudermos ser! É legítimo e desejável!

Como aprendi com um professor de Judô: não é todo mundo que nasce pra ser o Campeão Mundial, ele é apenas um entre milhares, e os demais não tem valor? A questão é: Campeão ou não a humildade e o respeito a todos é imprescindível.

Presenciei infelizmente certa vez um colega de cutelaria depreciando e ridicularizando o trabalho de um cuteleiro consagradíssimo, cujos ensinamentos transmitidos no passado possibilitaram que este, o crítico arrogante, metido e implacável, tivesse sustento em sua mesa nos dias atuais!

Lamentável!!! 


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domingo, 31 de março de 2013

Como nasce uma Faca de Aço Damasco

Minhas Motivações:

Um dos principais objetivos da criação de meu Blog, além é claro, da óbvia divulgação da qualidade técnica e do refinamento do meu trabalho ao público interessado em cutelaria, é a produção de material técnico de alto nível ao público brasileiro. 

A cutelaria custom brasileira tem apresentado uma evolução colossal nos últimos anos, com peças de altíssimo nível técnico e reconhecimento internacional. Entretanto ainda contamos com pouquíssima bibliografia técnica em nosso idioma. 

Desta forma a divulgação das matérias de cunho técnico que eu tenho promovido, bem como alguns de meus amigos e colegas cuteleiros de alto nível do Brasil, visam a ampla divulgação da nossa Arte, produzindo conhecimento de excelência a todo o público interessado e elevando o nível de forma geral.

"É do coração que veem as facas... não das mãos!"

Há alguns anos, numa conversa informal via e-mail com um dos meus professores, o que iniciou meus ensinamentos e me acompanhou por muitos anos, Luciano de Oliveira Dornelles, pessoa e profissional que muito admiro e rendo minhas reverências, mencionou que "é do coração que veem as facas... não das mãos!" 

Não foi somente isso que Luciano me escreveu naquele despretensioso e-mail, na verdade escreveu um verdadeiro poema, que retrata o que ele sente pelo nosso sagrado ofício. Um texto tão lindo que imprimi em papel especial e pendurei em minha oficina e vez em quando o leio e medito sobre ele. Um dia, se ele me conceder a devida autorização divulgarei o texto neste Blog.

O velho Índio (apelido do Dornelles) estava coberto de razão. O nascimento de uma bela faca custom é um processo sublime, quase espiritual, onde se transita em diversos momentos por áreas onde um pequeno erro de menos de 1% pode por tudo a perder. O artífice reúne  habilidade, concentração, inspiração, equilíbrio e paixão para fazer nascer uma bela peça.  Produzir uma bela faca traz uma imensa satisfação!!!

Uma versão aperfeiçoada:

A presente matéria foi produzida por mim há algum tempo e estava postada no meu facebook. Não vislumbrei razões para produzir novo material sobre o mesmo tema, uma vez que este atingiu todos os meus objetivos contendo explanação técnica inteligível e excelente material fotográfico.

Assim fiz uma revisão do artigo, produzindo explicações melhores e mais precisas para que ao final da leitura, meus leitores tenham uma visão bastante clara e ampla de como nós cuteleiros ganhamos a vida nos divertindo e fazendo o que amamos!

Espero sinceramente que vocês curtam a matéria e que ela traga incremento à seu cabedal de conhecimentos de cutelaria de alto nível. Boa leitura! 

Escolhendo os aços:

Normalmente os aços damascos são produzidos mediante a fusão de dois aços, sendo um aço ao carbono e um aço níquel (veja o artigo Como é feito o Aço Damasco - Link).

Para a faca em questão, escolhi o aço O1 como aço carbono e o aço 15N20 como aço níquel. Ambos são aços desenvolvidos pela indústria para a função específica de serem matéria-prima para a construção de ferramentas de corte. O primeiro (O1 com 0,95% de carbono) para ferramentas de corte industrial e o segundo (15N20 com 0,70% de carbono) para a confecção de lâminas de serra-fita para a serragem de toras de madeira em serrarias de alta produção. Os dois são aços de alto teor de carbono, o componente químico maior responsável por produzir capacidade de corte e retenção de fio. 

Cortando as barras de O1 em uma medida previamente planejada. 

Lixando as barras de O1. Normalmente as barras de aço chatas
 são produzidas por meio de um processo denominado extrusão
que é feito com o aço à quente. Quando de seu resfriamento
forma-se óxido de ferro, comumente chamado em nosso meio de "carepa", 
que impede a fusão dos aços em suas superfícies de contato, 
tecnicamente denominadas interfaces de caldeamento.
Para que a fusão seja bem sucedida, deve-se remover o óxido,
que é uma camada superficial, mediante abrasão.

As barras de O1 prontas para a montagem da barra inicial.

A chapa de 15N20, já esquadrejada para o corte 
nas mesmas medidas superficiais das barras de O1.

Cortando as chapas de 15N20 através de uma guilhotina manual.

As chapas de 15N20, visivelmente mais finas que as barras de O1, 
já prontas para comporem a barra inicial que se tornará aço damasco.

Montando a barra inicial:

Normalmente a proporção de aço níquel varia entre 30 a 40% do total de aços somados que compõem a barra já montada. Logicamente o aço carbono varia entre 60 e 70%. 

Como as chapas de 15N20 são bem finas, normalmente eu somo 3 ou 4 delas, dependendo do resultado que pretendo, para atingir a espessura que necessito. Quando somo essas 3 ou 4 chapas, para efeito de contagem e cálculo de camadas, eu as conto somente como uma camada.

À esquerda O1 e à direita 15N20.

A barra inicial, formada de camadas intercaladas dos aços O1 e 15N20,
perfeitamente alinhadas e prontas para a soldagem.

Soldando as camadas umas nas outras e todas em uma haste 
que permita a manipulação à distância dentro da forja à gaz.

A barra inicial, ou como chamamos "billet" pronta pra ir pro fogo.


Caldeando as camadas e produzindo damasco:

Aquecendo a barra, que deve ser movimentada frequentemente
 para que a temperatura permaneça uniforme, uma vez que a distribuição de calor
 dentro da forja não é absolutamente uniforme. 

Colocando Tetraborato de Sódio, ou Bórax, como é comercialmente chamado
 este pó branco que se liquidifica à grandes temperaturas
 e impede a formação de óxido de ferro entre as camadas de aços, 
consequentemente tornando possível o caldeamento, que é a micro-fusão de superfícies.

O billet sendo aquecido. A cor amarelo claro e as micro bolhas que o bórax produz
 indicam ao cuteleiro que alcançou-se os 1100° Célsius, necessários ao caldeamento.
Pouco menos que isso e as camadas não se fundem
e se chegar aos 1200° C inicia-se um processo
que chamamos vulgarmente de queima do aço,
onde perdem-se componentes químicos essenciais,
deixando-o anêmico, sem suas qualidades originais.

O caldeamento propriamente dito, mediante pressão aplicada pela prensa hidráulica 
(podendo também ser feito por meio de martelete hidráulico, 
mecânico ou pneumático ou martelo manual), que deve ser na medida adequada,
pois pressão excessiva pode provocar um deslizamento entre as camadas,
ao invés da desejada fusão.

Depois de caldeada, a barra é esticada, tendo suas superfícies limpas do óxido, 
para proporcionar novo caldeamento, multiplicando-se assim as camadas.

A barra cortada para proporcionar a multiplicação das camadas.

Barras novamente organizadas e soldadas para novo processo de caldeamento.
Esse processo pode se repetir por várias vezes, chegando às dezenas, 
dependendo do número de camadas pretendido, 
bem como do padrão de damasco que se está produzindo.
Essas demais etapas não serão aqui retratadas,
 pois são a mera repetição do que já foi mostrado.


Forjando a lâmina:

Depois de atingirmos o número de camadas objetivado, 
a barra é novamente esticada, para finalmente forjar-se a lâmina.

Este processo possibilita a "impressão" na barra, do padrão do damasco, 
mediante o uso de matrizes de caldeamento. Esse é apenas um tipo de processo,
existindo várias dezenas de outras formas de confecção de padrões.
A grande vantagem desse processo é a perfeita regularidade dos padrões resultantes.

O forjamento terminado. Neste processo a ponta não é forjada 
por meio do martelo manual, pois isso distorceria as camadas na ponta,
resultando numa região onde o desenho das camadas ficaria irregular e fora do padrão.


Usinado a lâmina:

O perfil da lâmina finalizado.

Um segundo de descontração, afinal o trabalho é pesado!

Removendo as linhas em alto relevo resultantes do forjamento por meio de matrizes.

Usinando a lateral da lâmina na lixadeira de cinta.

Constatando que toda a lateral da lâmina ficou sem qualquer falha de caldeamento. 
Caldeamentos perfeitos!

Nesta foto eu dei uma rápida mergulhada da lâmina em percloreto férrico, 
o ácido que usamos para revelar as camadas de damasco. 
A ideia agora era somente conferia a regularidade e densidade das camadas. Aprovado!

Desbastando à lima a linha do ricaço, sempre lançando mão 
de um bom guia de lima que ajude a dar total precisão à usinagem. 

Usinando o alojamento da guarda, onde esta ficará apoiada na lâmina.

As talas de marfim de mamute escolhidas para serem utilizadas no cabo
e a lâmina, pré-usinada e com a aparência do damasco à mostra.

Estampando em baixo relevo, mediante pressão de prensa hidráulica manual,
 a minha marca na lateral da lâmina.

O aspecto final da marca estampada em baixo relevo.

Usinando o falso-fio, processo que prefiro fazer manualmente à lima, 
pois assim asseguro total precisão e simetria.


Confeccionando as fornituras:

Iniciando a usinagem da guarda.

Finalizando a guarda, em estilo de pétalas, que gosto muito e acho bem bonito.

Furando o alojamento da espiga na guarda.

Finalizando as formas e dimensões do alojamento à lima.

Experimentando o encaixe da guarda na lâmina. 

Ficou perfeito.

Checando as dimensões e formato do espaçador, 
assim como a lâmina e a guarda, também feito em aço damasco.


Fazendo o cabo e montando a faca:

Lixando a parte de dentro das talas de mamute.

Tudo encaixado mas ainda não fixado, para verificar como será 
o aspecto final da peça, especialmente suas proporções.

Fixando a guarda, com a ajuda de um gabarito e um pequeno esquadro de precisão,
 para garantir os 90° nas duas laterais do ricaço com relação à guarda.

Fresando o alojamento da espiga nas talas de marfim.

Colando as talas de marfim de mamute na espiga da faca.

Finalizando a usinagem do cabo.

Furando o alojamento dos pinos. Para isso uso um gabarito, 
que preso a morsa de coordenadas, garante 90° dos furos
 com relação aos eixos horizontal e vertical da faca.

Dando acabamento final ao cabo, com uma tira de lixa grão 400 usada.
Chamamos esta técnica de "engraxate", que é perfeita 
para remover qualquer imperfeição do cabo.

Tudo fixado em seu devido lugar. Agora só falta tratar o damasco.


Tratando o aço damasco:

Protegendo o cabo com base de unha, para que o marfim 
não seja atacado no banho de imersão no percloreto férrico.

Banho de percloreto férrico, um ácido diluído em água que ataca
 mais as camadas de O1, deixando-as em baixo relevo com relação
 as de 15N20 que são bem menos afetadas e permanecem em alto relevo.

Banho de imersão em fosfato de manganês, que acontece sob temperatura e tempo
 controlados e ajudam a manter o damasco protegido contra a oxidação (ferrugem).

A faca toda coberta por fosfato de manganês.


Fazendo o acabamento:

Removendo o fosfato do topo das camadas de 15N20 que estão em alto relevo,
com a ajuda de uma lixa d'água1200 apoiada em um anteparo plano.

Polimento final e cuidadoso, para conferir brilho à faca.


Faca finalizada:

Depois de esse trabalho colossal, finalmente Faca pronta! 
Esta peça faz parte hoje da bela coleção do colecionador e amigo Marco Demeterco.

Lateral direita do cabo. Sempre tentamos preservar ao máximo o aspecto natural
 do marfim de mamute, que a mãe natureza levou vários milhares de anos para imprimir,
 enquanto as presas do animal permaneceram enterradas no permafrost,
 o solo congelado do hemisfério norte (Sibéria e Alasca).

Visão lateral esquerda do cabo.

A bela faca vista pelo outro lado. O resultado final 
me agradou demais... e ao Marcão também!





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