sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Uma faca do início ao fim: 3.Tratamento térmico

Dando prosseguimento em nossa caminhada do início ao fim de uma faca, vamos abordar hoje provavelmente a etapa mais "importante" entre todas.

Obviamente, todas elas são imprescindíveis e interligadas, igualmente responsáveis pelo resultado final.

Mas é o tratamento térmico que confere ao aço as qualidades míticas que lhes tem sido atribuídas há séculos. 

Se corretamente aplicadas, teremos:

1. Dureza;

2. Tenacidade: capacidade de sofrer deformação e voltar ao estado inicial, sem deformar-se ou romper-se; e 

3. Retenção de fio.

Vamos lá! Que Deus seja com cada um de nós!



TABELA DE TRATAMENTO TÉRMICO LIGA SAE 1095 E 15N20:



Recozimento: 770°C, apenas 1 ciclo, resfriamento em manta.



Normalização: 855°C, apenas 1 ciclo, resfriamento em ar tranquilo.


Têmpera: 800ºC, apenas 1 ciclo, em óleo de baixa viscosidade.

Revenimento: 210°C, 2 ciclos de 1 hora cada, resfriamento em água entre os ciclos.


Lembrem-se de que para esta liga de 1095 e 15N20, 
devido a possibilidade de encruamento,
optei por fazer um recozimento, o que foi demonstrado no artigo anterior.
Assim, antes da têmpera é obrigatório 
que se faça ao menos um ciclo de normalização,
que para esta liga recomenda-se 855° C.

Enquanto atinge a temperatura, um café
 e um tempo pra pensar na vida e falar com Deus.

Cuidado a retirar as lâminas do forno. 
Se batê-las ou derrubá-las, podem entortarem-se.

Cuidado também com queimaduras.

Deixe-as esfriar em ar tranquilo, preferencialmente penduradas,
pois se apoiadas sobre qualquer superfície, o resfriamento será irregular.

Aqueça previamente o óleo de têmpera, ou o diesel, que é o meu caso.
A temperatura de melhores resultados para têmpera é a de 60°C.
Lembre-se do fenômeno da inércia térmica, onde mesmo após desligar o
fogo, o óleo continua subindo de temperatura por alguns graus.
Na minha região que é muito quente, no verão eu desligo o forno aos 52ºC 
e no inverno aos 56ºC. Em ambas as ocasiões chego aos 60°C.

Para preservar meu forno, fiz uma moldura/cabide 
com cantoneiras e ferro em chapa.
Mantenha as facas desencostadas das paredes durante o aquecimento,
para que este se dê mais regularmente.

Esse equipamento é absolutamente indispensável à uma oficina de cutelaria!
Segundo orientações de meu amigo Major Carnevale, do Corpo de Bombeiros,
o mais adequado é o de pó químico, 
pois apaga incêndios elétricos e em líquidos combustíveis. 
A validade de um destes é de 4 anos. 
Excelente investimento na sua própria segurança.
Tenho o meu sempre à mão especialmente após meu acidente ao temperar
uma espada, onde quase incendiei minha casa!
Veja a descrição do que aconteceu e previna-se, clicando abaixo:

Temperatura de têmpera: 800ºC.

O aço 1095 é muito exigente com relação à têmpera, 
seja em uma lâmina de carbono, ou compondo uma liga de damasco.
Faz-se necessário um resfriamento de 550°C no primeiro segundo.
Para tal é necessária uma manobra rápida e precisa entre o forno e o óleo.
Recomenda-se óleo de baixa viscosidade, menos denso.
Óleos muito densos, como por exemplo os óleos vegetais, muito usados hoje,
não atendem às necessidades de resfriamento veloz desta liga.
Pode-se usar óleo de têmpera ou diesel.

Prefiro um recipiente largo por alguns motivos:
1. A base maior evita tombamentos e consequentemente incêndios;
2. A maior quantidade de óleo absorve mais facilmente a temperatura,
sem inflamar com facilidade. Se inflamar, forma uma chama pequena que pode
ser apagada com um assopro forte, ou tampando o recipiente.
3. Permite que se agite bastante a lâmina no sentido longitudinal (dorso/fio)
proporcionando excelente resfriamento.
Para facas de cozinha, faço têmpera full hard, ou seja, tempero a lâmina toda.
É dispensável a têmpera seletiva, pois tratam-se de facas que não cortarão
mediante impacto durante o uso normal.
Caso se pretenda cortar uma sequoia ou ir pra guerra
com uma faca de Chefe de Cozinha, recomendo a seletiva! 

Após a têmpera, limpe a lâmina com um pano seco,
removendo o óleo para que seu forno não fique com o cheiro deste.
Cuidado para não derrubar a lâmina após a têmpera e antes do revenimento,
pois ela se encontra em sua dureza máxima e pode quebrar-se!

Caso sua oficina fique fumaceada, ligue seu ventilador apontado para fora,
em uma porta ou em uma janela. Ligá-lo internamente apenas 
faz circular a fumaça, mas não a remove do ambiente! 

Local de meu extintor de incêndios na área de forjamento.
Quando tempero, o deixo ao meu lado!

Facas prontas para o revenimento:
1 hora à 210ºC;
Resfriamento em água para evitar a formação de carbonetos;
+ 1 hora à 210°C;

Resfriando na água entre os ciclos.

Aspecto da lâmina após o revenimento.

Em breve estarei postando as próximas etapas.
Acompanhe! Compartilhe!



https://cursodecuteleiro.com.br/


"Pelo contrário, como servos de Deus, 
recomendamo-nos de todas as formas: 
em muita perseverança; em sofrimentos,
 privações e tristezas;
entristecidos, mas sempre alegres;
 pobres, mas enriquecendo a muitos;
 nada tendo, mas possuindo tudo."
2 Coríntios 6:4,10


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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Uma faca do início ao fim: 2.Usinagem (Integrais)


Algumas considerações...

Uma das minhas principais razões para a construção destes artigos, que para mim são extremamente trabalhosos e que demandam grande tempo, é ajudar aos cuteleiros iniciantes.

Já citei num dos meus vídeos, que de forma alguma recomendo o desenvolvimento da carreira na cutelaria de forma auto-didata. 

Isto porque as técnicas envolvidas são demasiado difíceis e carecem de uma orientação.

Não que eu não acredite no aprendizado auto-didata, mas creio que pelas altas dificuldades técnicas, isso seria para gênios, e eu, por exemplo, jamais me enquadraria nesta categoria.

Até hoje não conheci nenhum profissional da área que em algum momento não tenha aprendido com outros mais experientes.

Por isso, no início de carreira, contei com a orientação dos "mais velhos".

Soube por um amigo, que minha recomendação de procurar um curso, feita no vídeo sobre damasco, gerou grande polêmica, pois o brasileiro e seu famoso jeitinho, sempre busca o caminho mais fácil e rápido.

Quando recomendei a participação em um curso, não o fiz em causa própria. Minha carreira como Oficial da Polícia Militar de São Paulo, me impede por falta de tempo, de ensinar e eu nunca ministrei nem um curso sequer. Ao contrário, toda vez que alguém me pede para ministrar cursos, o que acontece quase todo dia, sempre indico algum de meus amigos que sei serem profissionais sérios e competentes.

A frequência em um curso, oferece a sedimentação de conhecimentos sólidos, que proporcionarão um futuro desenvolvimento à altíssimos níveis técnicos.

"Encurtar o caminho" é, salvo raríssimas exceções (gênios), condenar-se à mediocridade, ou seja, estar, no máximo, na média profissional.

Isto é apenas um conselho, que exponho no meu canal de comunicação com os amantes das lâminas.

Meus artigos técnicos servem apenas de referencial, algumas pequenas dicas para quem dá seus primeiros passos na carreira. Eu jamais objetivei formar "auto-didatas". 

Continuo acreditando que frequentar um bom curso, ainda é um dos melhores investimentos que se pode fazer na carreira!

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AJUDE A DISSEMINAR CONHECIMENTO!


Que Deus abençoe à todos!

Mãos à obra

Neste artigo daremos continuidade na descrição do processo de produção de uma faca custom do início ao fim.

Nesta postagem trago o meu método de usinagem de uma faca de cozinha tradicional japonesa, cujo modelo denomina-se Santoku.

Tradicionalmente os cuteleiros japoneses não produzem facas integrais (facas construídas à partir de apenas uma peça de aço). Praticamente a totalidade dos modelos da escola japonesa é montada (facas cuja construção é composta de duas ou mais partes).

Como a construção integral é uma característica da cutelaria brasileira, praticamente todas as facas de cozinha que produzo, são integrais. Assim, adaptei minha forma de trabalhar ao modelo japonês.

Na sequência demonstrarei meu passo à passo da usinagem.

EM UM ARTIGO FUTURO ESTAREI TAMBÉM DEMONSTRANDO 
A USINAGEM DE UMA FACA MONTADA! ACOMPANHEM!

2. Usinagem 


Diz a Wikipédia que: A usinagem compreende o processo de desbaste mecânico que visa dar forma a uma peça, normalmente metálica e que compõe a matéria-prima.

Segundo ainda o dicionário Michaelis usinagem significa o ato ou efeito de usinar. Na prática isto significa submeter um material bruto à ação de uma máquina e/ou ferramenta, para ser trabalhado.



Existem vários processos de usinagem, entre eles serramento, aplainamento, torneamento, fresamento (ou fresagem), furação, eletroerosão, entre outros. A usinagem começou em tempos remotos com processos totalmente manuais e hoje em dia evoluiu muito com o uso de máquinas de alta precisão, como é o caso das chamadas CNC (com comando numérico computadorizado), com uma precisão que chega a ser tão pequena quanto a 1 mícron. Hoje em dia, a usinagem está presente em diversas indústrias, como a automotiva, a naval, a aeroespacial, a eletrônica, a de eletrodomésticos.



Definições à parte, vamos à prática...


 A primeira etapa da usinagem, seja de facas de damasco forjadas com matrizes,
seja de facas de damasco forjadas manualmente,
ou mesmo de facas de aço carbono é a remoção da carepa.
Como já expliquei no vídeo sobre aço damasco,
carepa é o termo utilizado na metalurgia para definir
a camada de óxido de ferro resultante do aquecimento de metais ferrosos.
Uma das características da carepa é que ela é extremamente dura,
o que consequentemente destrói muito rapidamente as cintas de lixa.
Assim, qualquer que seja o método de forjamento de sua faca,
recomendo a remoção completa da carepa, de todos os lados da faca.
Ao esmerilhar, tome muito cuidado com a inclinação do disco com
relação à lâmina. Se inclinar demais, pode em fração de segundo,
produzir um sulco na lâmina, o que pode condenar a peça.
Tenha cuidado especial com a região do dorso e do fio, 
pois por serem quinas, são muito mais fáceis de se produzir um sulco acidental.

 Lâmina cuidadosamente esmerilhada e livre de carepas.

 A primeira etapa que faço na usinagem de uma faca,
qualquer que seja o modelo, é usinar o seu perfil.
Para isso, invariavelmente começo pelo dorso,
que em praticamente todos os modelos, serve de referência para
a usinagem das demais partes.
A exceção com relação a iniciar pelo dorso, são adagas e espadas de fio duplo,
que obviamente não tem dorso.
Hoje não gosto de desenhar previamente um modelo,
nem tampouco de trabalhar preso à X ou Y milímetros,
com o paquímetro sempre à mão.
Fiz isso muitos anos no começo da carreira e recomendo aos novos cuteleiros.
Porém hoje, com anos de prática e estudando constantemente
modelos e proporções, prefiro confiar nos olhos,
que bem treinados ajustam as proporções ao melhor possível.
Com base nisto, não gosto de trabalhar com uma "encomenda engessada"
onde a faca deverá ter X milímetros de comprimento,
Y de largura e Z de espessura.
Sempre peço ao cliente que confie na minha habilidade para confeccionar
a faca, pois é comum que as medidas por ele passadas,
não resultem nas melhores proporções,
que resultarão numa faca bonita e de alto desempenho em uso.

 Após o perfil, sempre usino as laterais da lâmina,
ou o vazado. Lembrando que o meu método construtivo sempre
lança mão da usinagem denominada flat convex. 
Existe outro método também muito usado que se chama hollow ground,
mas eu não o uso.
Para quem está iniciando, vai um conselho:
Acostume-se a usinar a faca com ambas as mãos, desde o começo.
Isso preservará seu "braço bom" de excesso de uso.
Felizmente desenvolvi esta habilidade desde o começo
e sou ambidestro para usinar.
Sei que no início do desenvolvimento de suas habilidades isso será difícil,
mas persista que vale a pena.
Uma lembrança:
Perto de 100% da usinagem das laterais da lâmina,
é realizada com o fio voltado para cima.
Exceções justamente neste tipo de construção integral,
onde por alguns poucos momentos, usino com o fio para baixo.
Com relação à usinar em pé ou sentado,
acho que cada um deve fazer da forma que sentir-se mais
confortável e seguro.
Apenas mais uma dica:
Como na foto, posicione-se com os olhos sobre a mesa vertical de sua
lixadeira, de modo à ter total controle dos ângulos de entrada
da lâmina na cinta de lixa.

 Para este modelo especificamente, decidi fazer o bolster integral,
ou como chamamos no Brasil, bombinha, usinada em ângulo reto.
A maioria das minhas integrais são usinadas no rolete, finalizando 
a lâmina em curvas simétricas e harmônicas, o que julgo ser mais bonito.
Pelas características do estilo tradicional japonês, decidi pelos 90 graus.
Para isso, usino as laterais da bombinha, de modo a ficarem paralelas
uma com relação à outra e ambas com relação à linha central do dorso.
Depois prendo a lâmina no guia de lima e usino as laterais manualmente à lima.
É bem tranquilo de se fazer.

 A próxima etapa é a estampagem da marca na lateral da lâmina.
Eu sempre uso uma caneta para riscar a região, paralela ao dorso da lâmina.
Não recomendo que se faça o alinhamento nos olhos.
Já errei fazendo desta forma e marquei a lâmina inclinado.

 Para posicionar a lâmina para ser marcada, faça um suporte simples,
como o da foto e use calços na extremidade contrária,
de modo a regular a inclinação. 
O segredo é sempre manter o topo do carimbo paralelo,
tanto no eixo norte/sul, quanto no leste/oeste, 
com relação ao apoio do cilindro da prensa.
Muitas vezes eu também regulo a inclinação do apoio
da base da prensa, sobre a qual está a faca, colocando chapinhas 
finas na extremidade, de modo a deixar as superfícies citadas paralelas.
Para este estilo de estampagem, uma prensa de 15 toneladas é suficiente.
Minha marca tem superfície bem espessa e contundente
e eu consigo estampar com 11 toneladas de pressão.

 Lâmina estampada.
Um ponto que acho relevante e gostaria de destacar é a desnecessidade
de lixar a lâmina, com lixas manuais ou de cinta,
mais finas que o grão 50, antes do tratamento térmico.
Fiz isso por muitos anos no começo da carreira.
Usinava na lixadeira até o grão 220 e à mão até o 320.
Depois temperava e refazia praticamente tudo.
Aprendi desta forma e repliquei por algum tempo.
Desnecessário! Grão 50, depois têmpera, aí sim faz-se o acabamento definitivo!

 Para usinar a superfície de contado entre a lâmina e o cabo,
basta prender a lâmina no guia de lima, no sentido contrário.
Antes disso, faça uma prévia usinagem da espiga, alinhando-a
ao dorso e ao fio. 

 Comece limando a parte mais extensa do bolster,
ou seja o sentido vertical deste.
Lime até que sua lima não desbaste mais nada
e comece a escorregar sobre o guia de lima.

 Após isso, lime no sentido circular, como as setas demonstram.
Isso uniformiza toda a superfície no mesmo plano.
Para não desbastar a base da espiga, remova os dentes de uma das laterais de sua 
lima chata, para que nesta superfície ela não remova material.
Eu gosto de trabalhar com limas chatas de 12 polegadas.
Uso sempre as murças, pois as bastardas não desbastam com
precisão os aços de alto percentual de carbono que usamos na cutelaria,
além de produzirem riscos muito profundos.

 Dorso e espiga perfeitamente alinhados.
Para uma faca de cozinha, entendo que a espiga não precisa ter
 mais de 6 ou 7 centímetros de comprimento, o que oferece mais resistência
mecânica do que seria necessário.
Para outros estilos, como por exemplo as facas de campo,
chego a fazer espigas com até 11 centímetros de comprimento.
  
 Fio e espiga alinhados.

 Usinagem concluída. Faca pronta para a têmpera.
Eu prefiro manter a bombinha ainda em seção quadrada,
pois caso haja necessidade futura de mais algum ajuste à lima nas 
superfícies frontal e da retaguarda, fica mais fácil de prender o
guia de lima. Se ela já estivesse ovalada, isso seria muito mais difícil.

 Os dois lados da lâmina perfeitamente caldeado,
sem a existência da menor falha de caldeamento.

Em breve estarei postando as próximas etapas.
Acompanhe! Compartilhe!


"e aprendam a discernir
 o que é agradável ao Senhor."
Efésios 5:10




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terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Uma faca do início ao fim: 1.Forjamento

Minha Motivação

Olá Caros Amigos.

Em meu ponto de vista, o melhor caminho para que consigamos fazer com que a arte da cutelaria atinja o nível de destaque que merece no Brasil, é compartilhando conhecimento.

Hoje somos um país com grandes artistas de nivel técnico internacional. Entretanto, temos pouca tradição neste ofício e sofremos de grande carência de literatura técnica em língua portuguesa.

Assim, certamente um dos caminhos mais eficazes para disseminar conhecimento é, sem dúvidas a internet.

A divulgação de conhecimento e a demonstração de nossos métodos tem algumas consequências positivas e imediatas:



1. Ajuda aos que estão em fase inicial da carreira.

2. Esclarecem e formam novos clientes. Mesmo que um potencial novo cliente tenha poder aquisitivo para adquirir facas custom, este, não conhecendo "como se faz", pode não compreender dar o devido valor que estas facas merecem.

3. Oferece conhecimento técnico ao público amante das lâminas, extinguindo mitos e falsos enunciados que desconstroem a arte.



Alguns Esclarecimentos


Como nosso trabalho é essencialmente solitário, cada cuteleiro termina por desenvolver alguns métodos próprios.

Ainda que tenhamos aprendido com profissionais com mais experiência, é normal que adaptemos a forma de fazer cada etapa, ao modo que entendemos ser o mais fácil.

O que estarei postando aqui são os meus métodos de trabalho.

Estarei atualizando regularmente o blog, com todas as etapas, do início ao fim do processo de produção de uma faca custom.

De modo algum tenho a pretensão de apresentá-los como sendo o mais correto ou o mais eficiente. É simplesmente, como eu faço!

Nem tampouco me coloco aqui como como cuteleiro de nível X ou Y.

Tão somente desejo mostrar como eu trabalho e de alguma forma, ajudar às pessoas.

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Grande abraço e que Deus abençoe à todos!

1. Forjamento

Segundo a Wikipédia: Forjamento é o nome genérico de operações de conformação mecânica efetuadas com esforço de compressão sobre um material dúctil, de tal modo que ele tende a assumir o contorno ou perfil da ferramenta de trabalho.

Para este forjamento, usei a liga de aço SAE 1095 e aço 15N20.

Trata-se de uma excepcional liga em termos de poder de corte e de excelente resultado em termos de tratamento térmico, pois a tabelas dos dois aços apresentam faixas de temperaturas quase idênticas para cada etapa.

Comecei minha barra inicial com 42 camadas, sendo 21 de cada aço, intercaladas entre si.

As barras de 1095 mediam 150 mm x 50 mm x 3 mm.

As de 15N20: 150 mm x 50 mm x 1,5 mm.

Isso resultou numa proporção exata de 1/3 de aço níquel. 

 Soldando barra inicial.

 Pronto para iniciar o forjamento.

 Esquentando a barra e pensando nas coisas da vida.

 Jogando bórax (tetraborato de sódio). Deve ser colocado
antes que o aço adquira cor. Na foto é a segunda vez que havia jogado.

 Barra à 1100ºC, temperatura ideal de caldeamento, 
evidenciada pela ebulição do bórax liquefeito.

 Caldeando, sem excesso de força e gradualmente.

 Unindo as camadas.

Esticando a barra. 42.000 quilos de força bruta.

 Descartando a ponta da barra caldeada. 
Isso elimina inclusões de solda entre os aços.

 Na outra extremidade.

 Medição do comprimento total.

 Usando giz para marcar os cortes que dividirão a barra em 5 partes.

 Use sempre equipamento de proteção individual:
1. Protetor auricular;
2. Óculos;
3. Máscara;
4. Luvas, e
5. Boné (a aba do boné impede que as fagulhas e ciscos 
atinjam seus olhos por cima dos óculos e protegem seu cabelo,
ou o couro cabeludo, no meu caso, de queimaduras).

 Incline a barra para cortá-la. Isso facilita!

 Esmerilhando cuidadosamente as superfícies de caldeamento.

 Superfícies limpas.

 Normalmente as barras resultantes não terão todas o mesmo comprimento.
Se o forjamento for em prensa, coloque as menores no centro e divida
as diferenças nas extremidades.
As prensas tendem a comprimir mais as barras centrais 
e consequentemente as alongam mais que as exteriores.
No martelete esse efeito é o contrário.

 Para soldar, use sempre máscara de solda e luvas.
Hoje as máscaras de escurecimento automático 
são muito mais baratas que há alguns anos.
É um excelente equipamento. Vale cada centavo.

 42 camadas vezes 5 = 210 camadas.

 210 camadas vezes 4 = 840 camadas.

 Achatando.

 Laminando.

 Cortando as lâminas.

 Resultado: 6 lâminas e 2 tiras para fornituras.

 Soldando a lâmina na barra de ferro. 
O forjamento com matrizes imprime forças altíssimas.
Não recomendo de forma alguma o uso de tenazes,
pois julgo perigoso.

 Lâmina soldada.

 Untando as matrizes com óleo de soja. Ele impede a aderência da lâmina.
Nunca use óleo mineral, pois o efeito é contrário: gruda!

 Aquecendo a extremidade que será impressa.

 Prensando o padrão. O óleo inflama.

 Para forjar integrais, acho mais fácil caldear pastilhas para formar o bolster.
Pode ser feito já no forjamento da lâmina, mas prefiro assim.
 Esmerilhando a superfície de contato na lâmina.

 6 pastilhas para 3 facas.

 Esmerilhando a superfície de contato.

 Soldando as pastilhas na posição de caldeamento.

 Logo que aquecer um pouco, aplique bórax.

 Para caldear as pastilhas, sempre consegui melhores resultados com o martelo.
Pode ser feito na prensa, mas sugiro o bom em velho martelo.

 Forjando a espiga.

 Finalizando a espiga à mão.

 Forjamento concluído.

 Para esta liga, que é muito dura e geralmente produz encruamento
(endurecimento resultante de tensões internas advindas do forjamento)
sugiro que se faça o recozimento.
O encruamento gera problemas 
especialmente ao se estampar a marca na lâmina 
que por estar dura, geralmente empena.
A faixa de temperatura ideal é de 770º C.
Lembre-se que o recozimento produz crescimento de grãos
e consequentes problemas de fragilidade mecânica e 
deficiência na retenção de fio.
Fazer uma normalização antes da têmpera é obrigatório.

 Faca à 770ºC. O forno é uma excelente ferramenta 
para se ter fidelidade no tratamento térmico.
Também pode ser feito na forja.

 Acondicionando a faca entre mantas cerâmicas 
para que esfrie lentamente e fique macia para usinar e estampar.

Ah... a faxina também faz parte do trabalho!
Uma oficina limpa e organizada é imprescindível
para um trabalho esmerado e inspirado!

Em breve estarei postando as próximas etapas.
Acompanhe! Compartilhe!


"Fiel é Deus, 
o qual os chamou à comunhão 
com seu Filho Jesus Cristo, 
nosso Senhor." 
1 Coríntios 1:9


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