domingo, 1 de fevereiro de 2015

Analisando uma Faca Javalizeira

Conversando recentemente por email, com o amigo, cliente e estudioso de lâminas Orlando Soares, discutimos sobre a definição que normalmente damos para uma faca de "caça".

Orlando citou algo coerente que eu, por algumas vezes já havia meditado sobre isso! 

Chamamos de faca de caça, as facas que usamos para corear e trabalhar a carcaça de um animal normalmente abatido por uma arma de fogo!

Assim, na realidade, não deveriam ser chamadas de facas de caça, pois não caçamos com elas!

Óbvio que não estou louco o suficiente para tentar mudar um termo que se usa no mundo todo, provavelmente há séculos!

Mas, e as facas com as quais realmente se caça e abate o animal, como as antigas espadas de caça, muito comuns na Europa. 

Numa modalidade onde cães acuam o animal e o caçador o abate através de uma estocada na paleta, atingindo em cheio o coração.


As observações de Orlando são absolutamente pertinentes. Concordo com ele.

Aqui no Brasil não usamos muito as espadas de caça, mas sim facas especialmente projetadas para a caçada de javali com cães, que nos acostumamos a chamar de Javalizeiras.

Recentemente produzi uma peça destas e gostaria de analisar, junto com vocês, cada detalhe do projeto.


Sob o ponto de vista técnico, uma javalizeira se assemelha muito mais à uma lança, do que à uma faca convencional.


Por se tratar de uma faca que será estocada entre os músculos torácicos de um animal extremamente forte e grande, deve ter alta resistência mecânica!

Assim, como a foto acima mostra, forjei e usinei uma lâmina de cerca de 8 milímetros de espessura, mecanicamente muito forte e espessa, e capaz de suportar qualquer esforço sem se quebrar ou entortar!


A vista superior mostra a espessura da lâmina, bem como a ponta, bastante reforçada, pois sua função é exclusivamente a de perfurar, não preocupando-se que também corte com alta eficiência. 

A ponta de uma javalizeira deve ser bem mais espessa do que uma faca convencional, que perfura e corta com a mesma eficiência.

A javalizeira deve perfurar o couro mais grosso, sem quebrar ou entortar enquanto realiza seu trabalho.


Ainda falando sobre a ponta, contudo agora pela visão lateral, deve ser "caída", para facilitar a perfuração de algo que está abaixo da altura da mão do usuário. Para isso recomendo os designs Drop Point, Spear Point, ou como a faca em questão Swedge Point. 

Também deve ser o mais aguda possível, para perfurar com facilidade!


Pensando a lâmina como um todo, destaco 3 aspectos importantes:

1. Comprimento: deve ser longa, com pelo menos 10 polegadas. A faca deste artigo tem 11,5 polegadas de lâmina!

2. Largura: deve ser no todo, bem estreita, para otimizar a perfuração!

3. Falso-fio: que por diminuir a secção transversal da lâmina, melhora a performance de perfuração da lâmina. Para esta faca fiz um falso-fio extremamente longo, com 90% da extensão da lâmina!



Em se tratando de resistência mecânica, esta não pode estar presente somente da guarda pra frente! 

A foto acima mostra a espiga, que fica embutida dentro do cabo, bem longa e extremamente espessa, com 6 milímetros de espessura! É aço suficiente para forjar uma pequena faca de caça! Impossível de quebrar!


Para a guarda, recomenda-se que seja um pouco maior, tanto em altura quanto em largura, para que realmente promova uma proteção efetiva da mão do usuário.

As dimensões da guarda podem ser vistas na foto acima e abaixo.


Com relação ao cabo, recomendo que seja suavemente curvo! A pouca inclinação do cabo posiciona a ponta da faca um pouco mais para baixo, com relação à posição do antebraço do usuário, o que facilita a estocagem de um alvo abaixo da altura da cintura!

Outro aspecto é a velocidade de mobilidade da lâmina.

Quanto mais reto o cabo, mais veloz a lâmina! Quanto mais curvo o cabo, mais potente é o golpe de corte mediante impacto. A experiência do cuteleiro irá definir a inclinação!


Outro ponto importante é a previsão de um ponto de ancoragem de um fiel, afinal o usuário não pode se dar ao luxo de perder a faca durante uma corrida, ou na hora H de abater o animal!

Normalmente eu faria um furo no cabo e alojaria um tubo passador de aço inoxidável, para atravessar o fiel. Mas nesta faca, por se tratar de um raríssimo cabo de marfim de morsa, achei por bem não macular o material.

A foto acima mostra a região do ricasso, entre a área cortante e a guarda, onde é possível passar um fiel que envolva também o pulso do usuário!


A bainha deve ter boa estabilidade quando em corrida e assegurar que a faca não caia. Neste caso o fecho resolve a questão!

Um último aspecto a discutir é à respeito da geometria de fio.

Recomenda-se uma boa resistência mecânica, para evitar fraturas e trincos! Uma geometria semelhante à uma boa faca de campo é o ideal!

Como disse no início do artigo, esse projeto se assemelha mais à uma lança, do que à uma faca.

A geometria de fio forte, também proporcionará que o usuário utilize a faca também como uma faca de campo, podendo com ela, se for o caso, abrir mato ou cortar uma árvore!

Assim abordamos todos os principais aspectos de uma javalizeira.

Espero que tenha sido esclarecedor!

Abraços à todos!



Para receber emails de Facas Disponíveis, 
Vídeos, Artigos e Informativos sobre Eventos, 
cadastre-se, enviando email para:

e.berardoknives@gmail.com

Contato:
Email: e.berardoknives@gmail.com
Celular: (17) 99727-0246
Telefone Fixo: (17) 3525-2595

4 comentários:

  1. Caro Berardo,

    Parabéns!
    Além de linda, como você mesmo muito competentemente demonstra, a sua faca está tecnicamente perfeita para lidar com as necessidades da caça ao javali, ainda que minha experiência no assunto seja meramente teórica e que o mais perto que eu chego desse esporte é matando meus porquinhos domésticos que viram deliciosas linguiças, salames, copas e demais delícias suínas.
    Quanto ao texto, agradeço a referência, mas devo corrigir o termo que você usou: eu diria curioso no lugar de estudioso; precisaria ser mais dedicado para me dizer um estudioso.
    Outra coisa que gostaria de sugerir é que, sim, podemos e, diria, devemos tentar mudar o lugar comum quando ele não define precisamente o que queremos. Nesse caso específico, acho que os organizadores das Feiras e "Shows" deveriam incluir uma categoria de competição/premiação que distinguisse o que chamo de faca de "caçada" daquilo que para mim é uma faca de "caça". Como você disse e muitos dos seus leitores sabem na prática, um abismo distancia a faca que se leva para uma caçada e que tem a finalidade de uma pequena faca de campo, EDC (every day carry) e mesmo uma skinner de uma "legítima" faca de caça. Deixando outras realidades de lado, no Brasil, a caça esportiva oferece (legalmente) apenas uma espécie que propicia a oportunidade de se usar uma faca, adaga, espadim ou zagaia no abate do animal: o javali (e seus cruzamentos selvagens ou alçados). Nem o feroz queixada e seu primo caititu podem ser abatidos a não ser em caso de subsistência. Seja como for, considerando-se que é animal perigoso, nenhum caçador vai arriscar abater um javali acuado, mesmo que "imobilizado" por cães ou baleado com o que comumente se chama de faca de caça. Principalmente se a opção é sangrar o bicho no pescoço, onde, com uma virada de cabeça a caça troca de lugar com o caçador. Na hora do abate, a opção sempre será o que o gaúcho chama de "pontaço", seja "na volta da paleta" seja na artéria do pescoço. Uma faca para esse fim, pode, mas não necessariamente terá as características de uma faca que poderíamos incluir noutras categorias. Numa Exposição ou Feira, compara-la com uma bowie, adaga, gaúcha, sorocabana ou qualquer outra a colocaria em desvantagem para a premiação. Se o cuteleiro criar a ferramenta pensando exclusivamente na utilização da faca como arma de abate e mesmo de defesa de último recurso, sua faca ficará destoando das categorias habituais e nunca será premiada. O que seria uma injustiça se a tal faca fosse uma excelente arma com a qual se possa caçar.
    Desculpe-me se me estendi demais.
    Um abraço,

    Orlando Soares

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Caro Orlando, perdoe-me mas eu estava certo. Seus comentários, por si só, asseveram que você é realmente um grande estudioso, e não somente um curioso como você modestamente se definiu. Muito obrigado. Como sempre suas contribuições são virtuosas! Abraços!

      Excluir
  2. Olá Berardo,

    Sou coordenador de um projeto de monitoramento de javalis (www.aquitemjavali.blogspot.com) e caçador, encontrei seu post buscando uma nova faca pra eu praticar a caça ao javali, posso dizer que você foi muito feliz em seu objetivo e essa seria uma faca que eu utilizaria sem dúvida! Por falar nisso favor me enviar preço no aquitemjavali@gmail.com

    Atenciosamente,

    --
    Eng. Agr. Rafael Salerno
    Coordenador GT Javali
    www.aquitemjavali.blogspot.com
    Vivo: 31-9879-1624
    TIM/WhatsApp: 31-9882-7421
    Skype: Panda_br

    ResponderExcluir
  3. Ola Berardo
    Acompanho seu trabalho ha três anos e gosto muito, você tem cido uma pessoa muito importante para nos, cuteleiros aprendizes, tenho uma dúvida qual seria a largura máxima p uma javalizeira? Estou em um projeto de uma, desde já agradeço a sua grande colaboração no cenário da cutelaria artesanal, um forte abraço amigo.

    ResponderExcluir